domingo, 26 de outubro de 2008

ºº Nada de especial ºº

Nada de especial


Foto: Mai an hoa


Que silêncio tão grande. No interior do silêncio mais silêncio e no interior do mais silêncio um relógio minúsculo a anunciar

– Já é tarde, já é tarde

de forma que nem reparamos nos ponteiros. Para quê se o relógio insiste

– Já é tarde, já é tarde

e nós a olharmos uns para os outros,

inquietos

– O que diz o relógio?

apesar de termos ouvido perfeitamente a sua vozinha apressada, nós de súbito com medo

– Tarde?

e o que significa tarde meu Deus, o que pretende o relógio? Mesmo tapando as orelhas com as mãos a teimosia permanece

– Já é tarde

mesmo não escutando mais nada escutamos o

– Já é tarde

não sabemos se no relógio se no interior da gente, olhamos em volta, olhamos para dentro à procura, achamos episódios antigos, um triciclo, um avô a espantar-se

– O que tu cresceste

um colar de pérolas

(de quem?)

numa tacinha, achamos a nossa vida de hoje e qual o sentido da nossa vida de hoje, o que fazemos com ela, dias atrás de dias, o supermercado, o jantar no restaurante aos domingos, a maçada das crianças às vezes e não era bem isto que nos apetecia, não era bem isto o que tínhamos desejado, falta qualquer coisa, onde é que errámos, o que falhámos, não somos infelizes mas também não temos o que secretamente ansiávamos, os anos vão passando

(– o que tu cresceste)

e não temos o que secretamente ansiávamos, de vez em quando momentos tão vazios, de vez em quando, mesmo no meio dos outros, uma solidão tão grande, um desamparo, uma sensação de queda, esta dificuldade em respirar, porque a mobília sufoca, que vem e desaparece e volta, de vez em quando, sem motivo, vontade de chorar, não lágrimas grandes, não soluços, uma coisa vaga, uma pergunta

– E agora?

sem resposta, caras familiares que se tornam estranhas, se te abraçar continuo sozinho, o que se passa comigo, o que se passa connosco, o relógio prossegue

– Já é tarde

monótono, acusador, implacável, os objectos quietinhos sem nos ajudarem

– Porque não nos ajudam?

Nada nos ajuda, é tarde, tentamos conversar e é tarde, fazemos amor e é tarde apesar de termos feito amor na esperança que não seja tarde e depois, em lugar do prazer, ou misturado com o prazer, ou mais forte que o prazer, uma espécie de amargura que persiste, se não dilui, persiste, o

– E agora?

sem resposta aumenta, um

– E agora?

imenso, que horror, um

– E agora?

que nos preenche inteiros, se nos pegassem ao colo, fugissem connosco, nos

garantissem

– Não é tarde ainda

e pudéssemos acreditar que não é tarde ainda, tranquilizar-nos afirmando

– Não é tarde ainda

embora cientes que mentimos

– Não é tarde ainda

e tornar a mentira verdade, que outra coisa fizemos para além de tentarmos transformar as mentiras em verdades, não há ninguém mais crédulo que um desesperado

– O que tu cresceste

e em que direcção cresci que não dou por ter crescido, lá está o triciclo, lá está o avô, lá está o colar, os frascos de perfume que cheirávamos às escondidas, os cigarros que fumávamos secretamente no quintal, cresci para onde, cresci como, se nos metermos no carro, se almoçarmos fora, se te pegar na mão melhoramos e contudo

ficamos parados a teimar no silêncio

(que silêncio tão grande)

– Já é tarde

e não é o relógio, somos nós

– Já é tarde

não noite ainda e contudo tão tarde, aproximamo-nos da janela, os prédios do costume na rua

(esperavas outros prédios, outro bairro?)

e tão tarde, ganas de apanhar aquele cinzeiro e quebrá-lo no chão, de que serve apanhar aquele cinzeiro e quebrá-lo no chão, no espelho a nossa cara

– O que tu cresceste

diferente, a nossa cara e diferente, porquê diferente, o que é isto nos olhos, o que é isto na boca, a boca a ecoar

– Tarde

tal como os olhos ecoam

– Tarde

todo o corpo a afirmar

– Tarde

e quando o

– Tarde

diminui o

– E agora?

a dilatar-se nele, o

– E agora

imenso, sentamo-nos no sofá com uma revista, o jornal, um livro e as mãos vazias, apertamo-las uma na outra, espreitamos o triciclo, a certeza que se pedalássemos muito depressa não seria tarde, pedalar mais depressa que o relógio, os episódios antigos, aquela parente que nos oferecia rebuçados cujo papel não descolava e se nos prendia aos dentes, tentávamos retirar o papel com a unha e não saía, ainda nos lembramos do gosto do papel na língua, largamos a revista, o jornal, o livro, e ficamos no sofá, tanto tempo passado, com o papel na língua, a mastigá-lo, a mastigá-lo, a mastigá-lo, no fundo da gente nós mesmos a acusarmo-nos

– Porque me tornaste nisto?

o silêncio aumentou tanto que o relógio se calou, uma palma no nosso ombro

– O que foi?

e construímos peça a peça um sorriso

difícil

(custa tanto um sorriso)

que responde por nós

Não foi nada.


[António Lobo Antunes]

ºº Fotografia do Porto ºº



Foto: Hermann
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O
Porto é uma menina a falar-me de outra idade. Quando olho para o Porto, sinto que já não sou capaz de entender a sua voz delicada e, só por ouvir, sou um monstro que destrói. Mas os meus dedos são capazes de tocar-lhe nos ombros, de afastar-lhe os cabelos.
Entre mim e o
Porto, existem milímetros que são muito maiores do que quilómetros, mesmo quando os nossos lábios se tocam, sobretudo quando os nossos lábios se tocam. De que poderíamos falar, eu e o Porto, deitados na cama, a respirar, transpirados e nus?
Eis uma pergunta que nunca terá resposta.
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[José Luís Peixoto] in " Gaveta de Papéis"

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

ºº Embriaga-te ºº


"Os Bêbedos", José Malhoa (1855-1933)

Devemos andar sempre bêbedos. Tudo se resume nisto: é a única solução. Para não sentires o tremendo fardo do Tempo que te despedaça os ombros e te verga para a terra, deves embriagar-te sem cessar.

Mas com o quê? Com vinho, poesia ou com a virtude, a teu gosto. Mas embriaga-te.

E se alguma vez, nos degraus dum palácio, sobre as verdes ervas duma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez já atenuada ou desaparecida, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que se passou, a tudo o que gemeu, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são: “São horas de te embriagares! Para não seres como os escravos martirizados do Tempo, embriaga-te, embriaga-te sem cessar” Com vinho, com poesia ou com virtude, a teu gosto”.

[Charles Baudelaire]

domingo, 19 de outubro de 2008

ºº Silêncio ºº



Foto: David H. Collier

Silêncio


Como se o momento em que alguém se preparasse para dizer uma palavra ficasse suspenso. Instantes a acumularem-se sobre esse tempo cada vez mais longo. A suspeita de que toda a eternidade existe dentro desse momento parado. E, se alguém deixasse cair uma pedra na profundidade desse silêncio, poderia esperar que passassem séculos, mas nunca iria ouvi-la tocar no chão e apenas ficaria livre no momento em que acreditasse que a pedra se tinha desfeito em tempo e em silêncio.

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O número de mortos e o número de desaparecidos. Uma conversa que se ouve no autocarro enquanto se olha pela janela e não se consegue ver a paisagem que passa lá fora porque apenas se consegue ouvir aquela conversa de interjeições, de palavras inacabadas entre uma mulher e um homem. Milhares de crianças a fazerem as mesmas perguntas em todas as línguas do mundo. A hora certa marcada por apitos rectos, pedaços de rectas nos noticiários das estações de rádio. São catorze horas. São dezassete horas. São vinte horas em Portugal continental e no arquipélago da Madeira, menos uma nos Açores. O tom de voz dos políticos. Os comentários por telefone de pessoas que estão no outro lado do mundo. As imagens em movimentos na televisão. Um jornalista a dizer "uma história entre tantas outras".

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E silêncio. Nem o movimento das ervas sob uma aragem. Nem, por exemplo, um olhar pela janela pousado na distância. Apenas uma cor opaca e constante. As formas nítidas e paradas de todos os objectos. Finalmente nítidas no momento em que se tornam definitivas e inúteis. A solidão é feita de silêncio. As casas tinham sido feitas de silêncio e não sabíamos. Alguém contou todos os segredos. Num momento sem palavras, alguém contou todos os segredos e ficou apenas o silêncio.

[...]

E silêncio. Como se os homens ou a terra fossem capazes de criar uma música que corresse dentro do silêncio, como vento invisível dentro do ar invisível. Nenhuma palavra e a ausência de cada palavra esculpida com silêncio. O significado daquilo que ninguém sabe dizer. Silêncio atirado de encontro às palavras. A distância inconcebível e insuportável entre nós e todos os outros. Pedras. Terra. Lama. E silêncio. Silêncio. Silêncio.

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[José Luís Peixoto]