quarta-feira, 26 de novembro de 2008

ºº O Coelhinho Que Nasceu Numa Couve ºº


Era uma vez um coelhinho que nasceu numa couve. Como os pais do coelhinho nunca mais aparecessem, a couve passou a cuidar dele como se do seu próprio filho se tratasse.


Com ervinhas tenras que cresciam ao seu redor a couve foi criando o coelhinho dentro do seu seio até que ele passou a procurar a sua própria alimentação.


O coelhinho, que tinha um coração muito bondoso, retribuindo o afecto que a couve lhe dedicava considerava-a como sua verdadeira mãe.


A mãe couve e o seu filhinho adoptivo foram vivendo muito felizes até que um dia uma praga de gafanhotos se abateu sobre aquelas terras.


O coelhinho ao ver que aqueles insectos vorazes devoravam tudo o que era verde cobriu com o seu próprio corpo o corpo da mãe couve e assim conseguiu que os gafanhotos pouco dano lhe fizessem.


Quando aqueles insectos daninhos levantaram voo os campos em volta passaram a ser um imenso deserto de areias e pedra.


O pobre coelhinho, que sempre tinha vivido nas proximidades da sua mãe couve, teve de se deslocar para muitos quilómetros de distância a fim de procurar comida.


Mas já nada havia que se pudesse mastigar sobre aquelas terras.


Passaram muitos dias e o pobre coelhinho estava cada vez mais magro e faminto.


Então a mãe couve disse-lhe assim:

– Ouve meu filho: é a lei da vida que os velhos têm de dar o lugar aos novos, por isso só vejo uma solução; assim como tu viveste durante algum tempo no meu seio, passarei a ser eu agora a viver dentro do teu. Compreendes, meu filho, o que eu quero dizer?


O pobre coelhinho compreendeu e, embora com grande tristeza na alma, não teve outro remédio, comeu a mãe.


[Pedro Oom]


in, “Duas histórias para crianças (emancipadas) que ilustram a diferença entre o Amor Filial e o Amor Conjugal" (Magistralmente declamado por Mário Viegas, em Humores, 1980)


(& etc n.º 3, Lisboa, 14 de Fevereiro, 1973; mais tarde incluído em Actuação Escrita 1: Lisboa, & etc, 1980)

domingo, 23 de novembro de 2008

ºº Dá-me tu um nome, ... ºº



Foto: Haleh Bryan

“- Vou guardar as tuas mãos na paixão que tenho por ti, mas não te posso revelar o meu nome, nem precisas de o saber. Chama-me o que quiseres, dá-me um nome para que possamos amarmo-nos. Aquele que tinha perdi-o no caminho até aqui. Pertencia a outra paixão, e já a esqueci. Dá-me tu um nome, para eu poder ficar contigo.”

[Al Berto], in Lunário

domingo, 9 de novembro de 2008

ºº Apaga as estrelas, vem dormir comigo... ºº


Imagem de Sweetcharade

"No centro da cidade, um grito. Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar e sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado. Tem a dimensão de um túmulo e todos os teus gestos são uma sinalização em direcção à morte.
Mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria do mar. Medito no meu regresso.
Possuo para sempre tudo o que perdi, e uma abelha pousa-me no azul do lírio e no cardo que sobreviveu à geada. Bebo, fumo, mantenho-me atento, absorto - aqui sentado, junto à janela fechada. oiço-te ciciar: amo-te, pela primeira vez, e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte, acaba o corpo. Recolho o mel, guardo a alegria, e digo-te baixinho:
Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge."

[Al Berto] in “Lunário”

sábado, 1 de novembro de 2008

ºº Amor. Amor. Amor,... ºº














Foto: Zhang Jingna

"Amor. Amor. Amor, gostava de dizer esta palavra até gastá-la ainda mais. Amor, gostava de dizer esta palavra até perder ainda mais o seu sentido. Amor. Amor. Amor, até ser uma palavra que não significa nem sequer uma ilusão, uma mentira. Amor, amor, amor, nem sequer uma mentira, nem sequer um sentimento vago e incompreensível. Amor amor amor, até ser nem sequer uma palavra banal, nem sequer a palavra mais vulgar, nem sequer uma palavra. Amoramoramor, até ao momento em que alguém diz amor e ninguém vira a cabeça para ouvir, alguém diz amor e ninguém ouve, alguém diz amor e não disse nada. Sozinho, diante da campa. O amor é a solidão."

[José Luís Peixoto]
in «Uma Casa Na Escuridão»