sábado, 28 de março de 2009

Pecado meu. Alma minha.

«Pecado meu. Alma minha. Que fazes tu tão longe de mim?»


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«Se estivesses aqui, agora mesmo, seguramente estaria a violar os botões da tua roupa com os meus dedos ansiosos para tocar o teu corpo, aquecê-los na tua pele e misturá-los com o teu cheiro. Não estás, mas estou a imaginar-te.
Retrato-te com vida, com movimento e palavras: as tuas obscenas insinuações, a tua desmedida imaginação sempre por detrás da língua. Os teus olhos são capazes por si só de violar qualquer mulher, de penetrá-la até ao rubor, de tão lascivos que se tornam.
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Foto: Oleg Kosirev

Basta segurares-me pelas ancas para começar o incêndio. Sinto-me perder o equilíbrio, tão cheia de tonturas fico, com as tuas ameaças doces e obscenas. O quê? diz isso outra vez…»

[Pedro Paixão] excerto de «Alexandra Maria», in “A noiva judia”

segunda-feira, 23 de março de 2009

Um dia, chegaste...



“ (...) Passou tempo e eu não esperava que, um dia, chegasses. Mas passou tempo. Um dia, chegaste. (…)

(…) Chegaste. Eu não te esperava. Contigo trouxeste a ternura, o desejo e, mais tarde, o medo. Chegaste e eu não conhecia essa ternura, esse desejo. Em casa, no meu quarto, neste quarto, revi os teus olhos na memória, a ternura, o desejo. E, depois, aquilo que eu sabia, o medo. E passou tempo. Eu e tu sentimos esse tempo a passar mas, quando nos encontrámos de novo, soubemos que não nos tínhamos separado (...)"

[José Luís Peixoto], excerto do conto «Capricórnio a seus pés», in “Antídoto”

domingo, 22 de março de 2009

Entre Março e Abril



Que cheiro doce e fresco,
por entre a chuva,
me traz o sol,
me traz o rosto,
entre março e abril,
o rosto que foi meu,
o único
que foi afago e festa e primavera?

Oh cheiro puro e só da terra!
Não das mimosas,
que já tinham florido
no meio dos pinheiros;
não dos lilases,
pois era cedo ainda
para mostrarem
o coração às rosas;
mas das tímidas, dóceis flores
de cor difícil,
entre limão e vinho,
entre marfim e mel
abertas no canteiro junto ao tanque.

Frésias,
ó pura memória
de ter cantado –
pálidas, fragrantes,
entre chuva e sol
e chuva
- que mãos vos colhem,
agora que estão mortas
as mãos que foram minhas?

[Eugénio de Andrade], in “Coração do Dia”

sexta-feira, 20 de março de 2009

Vertigem



somos tão novos e estamos tão perdidos. o teu silêncio
dentro dos gritos das árvores, o meu silêncio sobre o
entardecer. seria feliz se pudesse dizer-te: vem,
vamos fugir de mãos dadas, amor.

[José Luís Peixoto], in “A Casa, a Escuridão”

quarta-feira, 18 de março de 2009

não devia...mas não pude...

“Não devia ter-te deixado entrar assim na minha vida, não devia. Mas não pude. Entraste em mim por assalto e foi doce resistir. Agora quero expulsar-te, e não consigo.Perdi-me em ti, por descuido. Agora não me encontro sem ti.”


(…)
“Não quero abrir os olhos para não ter que não te encontrar.”

[Pedro Paixão] excerto de «Fica querida com um beijo que não passe», in “A noiva judia”

quarta-feira, 11 de março de 2009

E eu direi...


"(...)E eu direi:- Dantes, eras uma visão. Sentia uma luz acender-se na pele e eras tu. Hoje, preparo e bebo venenos para que o brilho daquilo que já não és venha ao de cima, se solte do sangue e estremeça, cintile e não se apague.

Tu:- O medo, o grande medo que se confunde com a serenidade, devora-te. E se nos tocarmos perderemos a inocência; ou, talvez tu morras e eu ressuscite. Mas uma coisa é certa: não nos cruzaremos mais, estamos definitivamente sós. Eu, enterrado. Tu, respiras.

Eu:- Quero morrer perto de ti, de nada me servirá morrer inocente.

Tu:- Aqui, nesta treva, o que é que parou no tempo? As nossas vidas? A paisagem? O mar? Do qual nunca soubemos a idade...

Eu:- Quando sentia o teu corpo contra o meu ouvia, lá fora, a fúria o mar. Era um presságio de felicidade, mesmo sabendo que só o mar de outras terras é belo.

Tu:- Continuas a escrever demais, matas tudo com as palavras. Olha como eu te olho. Olha para mim e cala-te. Devias encher a caneta com tinta envenenada.

Eu:- O último deserto que me resta de ti é a noite da escrita. Nela te mantenho vivo, amante morte. Já não possuo bens e não prevejo herança nenhuma. Vivo para a travessia do corpo que me sepultou na memória... o teu.

Tu:- Aquele que se prepara para morrer tem que povoar a alma com tudo o que vai abandonar. Não chegues aqui de coração vazio. É insuportável estar morto, sem nada que nos habite. A morte não admite distracções; por isso, a maior parte das pessoas não sabe morrer, desfaz-se.

Eu:- Não há vergonha em dizer ou escrever isto: amo-te ainda.(...)”

[Al Berto], in “O Anjo Mudo”

Olhos fechados



fecho os olhos. vejo luzes de cidades distantes. a noite
distante. vejo o brilho de um sonho tão impossível.

a escuridão é absoluta. a escuridão é infinita.
todos os cegos sabem que a escuridão é a morte.

fecho os olhos. vejo aquilo que se vê com os
olhos fechados.

[José Luís Peixoto], in “A Casa, a Escuridão"

segunda-feira, 9 de março de 2009

visita-me ...



visita-me enquanto eu não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com o teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
vem

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
vem

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
vem

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-se
.
[Al Berto], in "O Medo"

Arcanjo Negro


Arte de Luis Royo

Encosto os meus lábios
aos teus pulsos
e sinto latejar o sangue
quente

Um palpitar de anjo sem
limites
de nuca baixa
onde cravo os dentes

Recordo o passado
onde eras
um negro arcanjo
de espada desvairada

E tenho medo
de não voltar a sede
de tanto querer
com tanta raiva

[Maria Teresa Horta]

sexta-feira, 6 de março de 2009

Tu...



“Tu continuarás longe, a imaginar-me sem entender. E a noite continuará para sempre reflectida neste espelho.”



[José Luís Peixoto], in “Antídoto”