sexta-feira, 31 de julho de 2009

hoje é dia de coisas simples



hoje é dia de coisas simples
(Ai de mim! Que desgraça!
O creme de terra não voltará a aparecer!)
coisas simples como ir contigo ao restaurante
ler o horóscopo e os pequenos escândalos
folhear revistas pornográficas e
demorarmo-nos dentro da banheira

na aldeia pouco há a fazer
falaremos do tempo com os olhos presos dentro das chávenas
inventaremos palavras cruzadas na areia... jogos
e murmúrios de dedos por baixo da mesa
beberemos café
sorriremos à pessoas e às coisas
caminharemos lado a lado os ombros tocando-se
(se estivesses aqui!)
em silêncio olharíamos a foz do rio
e o brincar agitado do sol nas mãos das crianças descalças
hoje

[Al Berto], Doze Moradas de silêncio, do livro "Salsugem", in O Medo, 4ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2009.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Confissão


Queres saber onde estou? Estou no lugar onde qualquer pessoa que foi amada se encontra. No mexer, no sussurrar, na entrega, no incansável prazer, na alma a dois. Lindo é o meu amor nómada que não pára de fugir de paisagem em paisagem e me vem visitar sempre que o não espero. Para sentir bater mais forte o meu coração que ele envolve como uma serpente. E o meu sexo nos seus dentes.
.


Vem ter comigo que eu não espero mais.




[Pedro Paixão], in "Nos Teus Braços Morreríamos", excerto de do conto "Confissão"

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Os Perigos do Verão


Foto: James Houston

Era o verão, o seu desassossego.
Era o desejo,
o desejo rompendo da sombra
sem caminho, e doía.
Era o ardor, o mais diáfano
irmão da melancolia.
Era o amor, o espanto
do amor, desarmado,
sem abrigo.
Era o deserto, o deserto à porta;
e fervia.

[Eugénio de Andrade], in "Ofício da Paciência"