terça-feira, 10 de agosto de 2010

....as palavras existiram e foram um eclipse. (…)

Fotos: Jan Saudek


(…) E no fim dos passos, encontraram-se. Sentados sobre as camas de ferro dos seus quartos, lembraram-se:encontrámo-nos. Naquele dia, perante a imagem verdadeira um do outro, sentiram: encontramo-nos. No rosto dele, a esperança. No rosto dela, mais do que a esperança. Encontramo-nos.Encontrámo-nos. Encontraram-se. Foi ele que caminhou a distância pequena que ainda os separava. Foi ele que estendeu os braços. Ela baixou o olhar entre o seu corpo imóvel e a terra. Os braços dele sem uso. As palavras formaram-se dentro dela. As palavras aproximaram-se dos seus lábios. No silêncio, entre os seus rostos, as palavras existiram e foram um eclipse. (…)



[José Luis Peixoto], in “Antídoto” num excerto de “Ao Adormecermos Eternamente”

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Recado



























foto: Zbyszek Kordys


ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte


vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite


deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me


que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço

[Al Berto], in “Horto de Incêndio”

terça-feira, 3 de agosto de 2010

[…] no centro da cidade, um grito…



foto:Jan Saudek

[…] no centro da cidade, um grito…

[…] no centro da cidade, um grito. Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar. E sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado, tem a dimensão de um túmulo, e todos os seus gestos são uma sinalização em direcção à morte […]. Mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria do mar. Medito no meu regresso. Possuo para sempre tudo o que perdi. E uma abelha pousa no azul do lírio, e no cardo que sobreviveu à geada.[…] Bebo, fumo, mantenho-me atento, absorto – aqui sentado, junto à janela fechada. Ouço-te ciciar amote pela primeira vez, e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo. Recolho o mel, guardo a alegria, e digo-te baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge.

[Al Berto], in “O Último Coração do Sonho”