sábado, 26 de março de 2011

Nada garante que tu existas


Nada garante que tu existas
Não acredito que tu existas

Só necessito que tu existas


[David Mourão-Ferreira], in "O Corpo Iluminado"

segunda-feira, 21 de março de 2011

De palavra em palavra

foto: Itou Kouichi


De palavra em palavra
a noite sobe
aos ramos mais altos

e canta
o êxtase do dia. 


[Eugénio de Andrade] in "Poesia"

domingo, 20 de março de 2011

Anjo da guarda

foto: urix

“(…)És o meu anjo da guarda, não tenho outro e não quero mais nenhum. Basta a enorme injustiça de o teu corpo te ter retirado desta vida. Nunca chegarei a dizer-te nada do que por ti senti. São tristes todas as canções de amor porque só se canta o amor depois de ele morrer.Tu sabes que é assim.”

[Pedro Paixão], in “O Mundo é Tudo o que Acontece”

Os anjos dançam no céu.

.
“ Por detrás do vidro onde a chuva batia, sobre a cama desfeita, ao lado da rapariga de pernas longas e esguias que um lençol mal tapava, o anjo caído de asas longas e finas.
Por detrás do vento, numa luz fria, sobre o lençol branco, o corpo abandonado da rapariga, de joelhos e costas dobradas. O anjo chorava, as duas mãos no rosto. No silêncio do quarto, entre muros, em segredo, a rapariga sonhava os sonhos que o anjo ao ouvido soprava, e o anjo rezava, o anjo de asas suaves e húmidas. E antes que ela acordasse deixou-a só.”


[Pedro Paixão], in “O Mundo é Tudo o que Acontece”

quinta-feira, 17 de março de 2011

quando...


quando te escuto
o mar é o som que amplio
quando te toco
cresço na areia salgando a espuma
quanto te sei
o infinito é consequência
quando te olho
a gaivota nidifica
quando te apartas
morre-me o silêncio.




Helena F. Monteiro via Linha de Cabotagem III

domingo, 13 de março de 2011

Toque Oriental

foto: Augusto Peixoto

Sei que tem de ser
assim no mundo real
e tão cruel –
até mesmo nos meus sonhos
nos escondemos dos outros.


[Ono No Komachi], in “ O JAPÃO NO FEMININO” – TANKA  séculos IX a XI

Toque de Perguntas






Este amor será
real ou um sonho?
Como hei-de sabê-lo,
se a realidade e o sonho
Existem sem existir?



[Ono No Komachi], in “ O JAPÃO NO FEMININO” – TANKA  séculos IX a XI

As Bicicletas em Setembro



Sente que fora abandonada por todos, e coisa alguma se harmonizava com o que entendia ser a sua alma. Permanecia assim: dias esquecidos e indiferentes, cavando fundo, as sombras mais frias; tombavam as primeiras folhas amareladas, nasciam as primeiras folhas verdes. Morte e recomeço. Nenhum laço a prendia a ternas lembranças, porque as não tinha, a não ser a emoção que tomava conta dela quando recordava os rapazes e as raparigas. Abandonada por todos, unida ao seu pessoal silêncio, era tocada por um sentimento de piedade, muito próximo do religioso. Parecia-lhe uma maldição tudo por que vivera, e certas zonas calcinadas do seu passado emergiam, agora, nítidas e dolorosas. Não quero acabar assim: encurralada e assustada. A casa vazia ressumava persistente odor a velhice. A velhice tem um odor húmido que se cola às coisas e, viscoso, parece escorrer pela pele. Tapadas, uma a uma, as janelas abertas pelos sonhos, pelas paixões, pelos desejos, pelas fraquezas e pelas intuições. A subida do desespero extremo, instantes sem conteúdo e, simultaneamente, portadores de secretas significações: o torpor de uma tarde suspensa e a invasão da alma pela morte. Varavam os dias, entretecidos uns nos outros. Sabe-se: gostamos das estações do ano consoante as estações da nossa vida. Apreciamos o Outono quando começamos a ficar velhos. A Primavera dói-nos porque nos dói os ossos, as carnes do peito e das pernas. Onde menos se supõe, lá está a dor. A felicidade não existe; há, apenas, instantes felizes. Também se diz que não se pode ter tudo. Mas porque razão não se pode ter tudo? Que nos impede de ter tudo? Quando fiquei só desorientei-me um pouco. Por vezes, era assaltada pelo receio de gritar no meio da noite. Pela primeira vez pressenti-me incapaz de dominar os meus medos e de remediar os meus impulsos. Vagueava pela casa, permanecia horas a reler jornais antigos, o silêncio era denso, o cheiro da solidão horroroso, os pensamentos afluíam e corriam à desfilada num tropel doentio. Assustava-me. Pensava na absoluta necessidade de coisas sem importância, mas tudo me conduzia às perplexidades do desalento. O poder das emoções começava a esclarecer as causas pelas quais eu fugira de tudo e ali me instalara. Todas as cidades, afinal, dispõem de um sítio onde as pessoas podem recolher-se, e onde o tempo pára quando rimos. Nunca quis muitas coisas. O que forma a minha e a tua vida foi a atracção mútua, embora nada nos aproximasse. Nem em dúvidas nem em certezas éramos semelhantes. Acreditavas em Deus; eu não só ignorava a Sua existência: desprezava-a. Hoje, admito que esse desprezo talvez contivesse algo de receio e de atracção. Como a morte: atrai-nos enquanto a repelimos. Detestavas os meus pequenos prazeres, fizeste-me amargar muitos deles com implacável zombaria: livros, músicas, filmes. Não merece a pena nomear as nossas divergências. Provínhamos do mesmo sítio, mas não pertencíamos aos mesmos sonhos.

[Baptista-Bastos], in “As Bicicletas em Setembro”

quarta-feira, 9 de março de 2011

Toque Oriental



O meu desejo de ti
é forte para contê-lo –
assim ninguém vai culpar-me
se à noite for ter contigo
pela estrada de meus sonhos.


[Ono No Komachi], in “ O JAPÃO NO FEMININO” – TANKA  séculos IX a XI

Toque de Perguntas


Qual será melhor –
o amante que está longe,
por quem se suspira,
ou aquele que está perto
e nem sequer se deseja?

[Isumi Shikibu], in “ O JAPÃO NO FEMININO” – TANKA  séculos IX a XI

Agora sou eu a falar

foto:Jim Wrightwood(James Baeza)


Agora sou eu a falar. Conheces essa palavra? Como é que se diz isto? Eu estou apaixonada por ti. O que é eu preciso de fazer para tu me veres. Nada, não faças nada. Mas pelo menos pára de olhar para todo o lado. Olha para mim. Eu preciso muito de olhar para ti. Sim, assim. (…) Repete lá. Eu não me importo, faz de mim o que quiseres. Já te disse. Tu também podes fazer o que quiseres, mas dentro de limites. Sim, tu falas muito bem e tudo, mas mesmo tudo o que dizes é verdade ou também é verdade. Há muito tempo que não dizes um único disparate. Se quiseres podes dizer um agora. Sim, é verdade. Mas tu não ligas às coisas que eu digo, e se quiseres que eu páre de falar basta pousares a tua não sobre a minha nuca. Assim. Agora és tu a falar. (...)

[Pedro Paixão], in “A noiva judia”, excerto do conto Agora sou eu a falar

sexta-feira, 4 de março de 2011

longe do olhar dos outros




Tempo branco, tempo de nenhuma paixão.
Desce ao âmago desta cela.
Debruça-te para o interior do meu vazio.
Nenhum rosto, nenhum pensamento, nenhum gesto inútil.
Nenhum desejo — porque o desejo precisa de um rosto.
E no lugar daquele que partiu acende-se a noite. Pressente-se a morte.
Mas no fundo de mim carregas ao ombro uma chapa de aço, em forma de sol apagado.
O teu corpo fundiu no silêncio do meu.
Dormimos na espessura da poeira, e nela suspendemos o tempo.
Abandonamos a alma.
Esquecemo-nos.
Nada sentimos, nenhum acto se realiza.
Nenhuma alegria ou tristeza.
Apenas matéria, matéria deixada à voragem dos escombros e da ferrugem.
Agora podemos tocar, enlear, comprimir ou distender os corpos.
Construir formas com eles e deixá-los, assim, numa melancólica eternidade.
Longe do olhar dos outros, respiramos ao mesmo tempo - como uma só engrenagem, única e bela.
Resquício de memória que se apaga lentamente, sem que ninguém dê por isso.


[Al Berto], in "O Anjo Mudo"

.. Sensações ..


depois de muito tempo ausente é altura de voltar aos meus dois blogs.



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