domingo, 13 de novembro de 2011

se alguém disser...


foto:Meredith Amadee 




se alguém disser que morri, avança até à varanda do céu,
escuta a noite e recolhe o meu corpo da espuma dos planetas.
não deixes que o meu rosto se dissolva nas tuas mãos,
insiste no meu nome até que o mar ascenda à tua boca.
e de luar em luar celebra o coração que fiz teu, mudamente,
como se o amor fosse sobreviver às veias paradas de sangue.




[Vasco Gato]

sábado, 12 de novembro de 2011

Quando se trata de sensualidade...

foto: Thomas Wilker 

" — Quando se trata de sensualidade — diz Henry — , tu és quase mais sensual do que June. Porque ela pode ser um esplêndido animal quando se está com ela nos braços, mas depois, nada. Ela é fria, dura até. O teu sexo permeia o teu espírito, passa a seguir para a cabeça. Tudo o que pensas é quente. Tu estás constantemente quente. A única coisa é que tens um corpo de garota. Mas que poder que tens de manter a ilusão. Tu sabes como os homens se sentem depois de terem tido uma mulher. Ficam com vontade de lhes dar um pontapé para fora da cama. Contigo, depois de tudo o ambiente fica tão alto como antes."

[Anaïs Nin], in "Henry e June"

terça-feira, 8 de novembro de 2011

w. d. sevahc / carta simples

Thinking About You by mgo
Hoje quis escrever-te e não consegui.
Pesam-me os verbos como pedras
nestes dedos, mas vês,
é sobre ti que se debruçam as palavras
que não saem
e nestes olhos a gratidão
de saberes sempre quando preciso da tua mão

na face, quase materna, quase amante,
e azuis os rasgos de ternura
de uns olhos castanhos e
meigos
que me libertam das águas revoltas
onde lutam os meus neurónios
em batalhas estéreis e sem sentido.
Tens sido tu o porto de abrigo
que me recolhe nas paisagens desse País
que escondes no teu corpo e no teu nome
e me dá uma paz profunda
e me asseguras na minha infantil insegurança
que o passaporte que assinaste para eu aí viver
é vitalício e sem encargos,
esse País tão infinito onde me quero nacionalizar
e ter asilo.
Se conseguisse, hoje tentaria explicar-te
que as razões da minha insegurança
vêm do facto de que quando me multiplico
nos jardins que escolho com cuidado
a água desaparece sem razão
correndo aos poucos para outros rios,
desidratando-me os afectos.
Sou inseguro e insistente
devido à inevitabilidade de que perpetuarás
esse ciclo, e que tenhas medo e fujas
e ergas muros que ficarei a contemplar
com os meus olhos tristes
que te dizem tanto sem dizerem nada,
excepto não tenhas medo,
não fujas,
não vás,
não sejas um rio
onde estas raízes não bebam.

.
[w.d. sevahc]

(via)