quinta-feira, 22 de agosto de 2013

CHAMAS MALDITAS


Bombeiro Português-foto Reuters

Bombeiro Português- foto Reuters
CHAMAS MALDITAS

Lágrimas que queimam, gizadas em forma de chama, punhal que me penetra o peito, choro, choro muito, eternamente. Meu querido filho, que tanto amavas a vida, tu, vida da minha vida que o maldito fogo levou, porque partiste!? Tanto te avisei mas nunca me ouviste, de sorriso largo insistias em ser aquele menino guerreiro, com coração de anjo… Persistias que a tua missão era ajudar a salvar os outros, o planeta, a vida. Nunca dizias que não, dia e noite, voluntariamente disponível para salvar, o que quer que fosse, a enfrentar a morte. Um dia o nosso amigo Raul fez-te um convite para ires com ele para a Suíça, pois dizia-me: “o seu Gabriel tem dotes que qualquer empresa pagaria bem e em vez de continuar por aqui, pelo amor à terra e aos outros, deveria era emigrar. Com um euro e meio à hora ninguém vive!”, dizia-me ele com voz de amigo. Mas o teu sonho de seres bombeiro voluntário concretizou-se, eu sei, e nada te tirava daqui, da tua terra, da tua família. Sei que o fogo não te consumiu a alma, grandiosa, apenas que destruiu o corpo, sei que lutaste até ao teu último sopro para combater as malditas chamas e impedir que consumissem mais um metro de terra, sei que enfrentaste o inferno de sorriso na alma, e isso consola-me, sinceramente, pois só eu e o teu pai sabemos o que significava para ti ser um verdadeiro Cavaleiro da Paz, sei bem a serenidade que tal te oferecia, sei bem que era esta missão que te movia. Mas é duro meu querido filho, tão duro viver neste fosso que a tua ausência provoca. Não sei se aguento muito mais, não sei. O teu pai, com 58 anos, está neste momento num incêndio, na Serra do Monte a tentar vencer um fogo que lavra há três dias. Alistou-se como voluntário em tua homenagem e diz que se morrer como tu, morre feliz. 

Texto de Paulo Costa