sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Poema em prosa de Leonard Cohen

Photograph by Rob Verhorst



Pergunto-me se o meu irmão chegará a ler isto alguma vez. Sem dúvida que o repudiaria, espero que com gentileza, diria talvez que o mar é todas as coisas que eu disse, máquinas de sonhar, um olho de cristal, tudo isso, mas embora seja verdade é melhor conservar estas coisas em segredo. Agora poderia dizer-lhe algo que nunca soube quando vivíamos juntos. Que é um luxo esse de se deixarem coisas no tinteiro, um luxo de que muito poucos podem disfrutar. Os filhos do vento e da água não precisam de se esmerar acerca daquilo que o seu sangue conhece, mas quantos podem controlar essa economia, e quantos mais se vêem obrigados a arranhar e escavar o mundo de mil diferentes maneiras, apenas para estabelecer a mínima conexão entre as suas vidas. Os heróis e os semi-heróis, os meninos ungidos aspirando pelas constelações que os esperam, esses podem desdenhosamente não implorar ao mundo horizontal com palavras e metáforas organizadas, mas eu careço do seu equilíbrio; como tantos outros, eu não aspiro a nada, não estou a ponto de ascender à minha glória, de modo que devo mover-me torpemente entre as minhas amarras, devo negociar o amor que vou alcançar, fora da minha breve história particular não haverá paixão que me revele, ninguém em particular me reclamou, de modo que me devo dedicar à confusa política do general e gritar aos deuses para demonstrar a sua irrealidade, tal como o meu irmão e eu quando embaciávamos os vidros das janelas com o nosso bafo, para que pudéssemos desenhar neles com os nossos dedos. Ele desenhava perfis, para os quais eu desenhava complicados olhos, e ninguém te pede que decidas qual dos nossos esforços foi mais significativo.

[Leonard Cohen] (n. 21 de Setembro de 1934, Canadá - m. 7 de Novembro de 2016, Los Angeles), in “Filhos da Neve”.


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