terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Retrato Ardente

foto: Andrea Hübner
















Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.

[Eugénio de Andrade], in "As Palavras Interditas"

domingo, 29 de janeiro de 2017

FOTOGRAFIA DO PORTO





O Porto é uma menina a falar-me de outra idade.
Quando olho para o Porto sinto que já não sou capaz
de entender a sua voz delicada e, só por ouvir, sou
um monstro que destrói. Mas os meus dedos são capazes
de tocar-lhe nos ombros, de afastar-lhe os cabelos.
Entre mim e o Porto, existem milímetros que são
muito maiores do que quilómetros, mesmo quando
os nossos lábios se tocam, sobretudo quando os nossos
lábios se tocam. De que poderíamos falar, eu e o Porto,
deitados na cama, a respirar, transpirados e nus?
Eis uma pergunta que nunca terá resposta.

[José Luís Peixoto], in "Gaveta de Papéis"

foto do google imagens

sábado, 28 de janeiro de 2017

Vês lá fora?

foto: alina troeva


"Vês lá fora? Há duas nuvens pequenas, uma por cima da outra. Uma és tu, outra sou eu. Qual delas és tu? Qual delas serei eu? Repara como se movem, uma por cima da outra, uma ao lado da outra, uma perseguindo a outra. Não se vê o vento que as sopra. Tocam-se, misturam-se, cada uma quer a outra para si. Só para si. Não se ouve o vento. O amor é silencioso como as plantas. O amor não tem palavras."

[Pedro Paixão], excerto tirado da pág.19 do livro ”muito, meu amor”