quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

E naquele dia foste...

foto: Evgenia Karica

Quando chegaste, surgiste sem que eu te esperasse e entraste por mim feita onda rebelde, irrompendo pela calmaria da praia. Apareceste do nada para te fazeres no meu todo, ocupaste o vazio que me preenchia e encheste o oco que me esvaziava.  

Quando partiste, levaste a minha precisão de ti quando mais te precisava. Desconfio que foste sem me levares mas eu sei que fiquei, tendo ido. Saíste de ti para não me levares contigo; deixaste de ser tu para não me teres em ti. Fugiste, deixando para trás o que querias ser e levando o que és, sem que sejas.

Demoraste toda a minha existência a chegar mas não te prolongaste a existir ao meu lado. Pressinto que foste sem levar nada de mim mas sinto que muito de mim foi contigo.

E é este espaço, de novo, esvaziado que preencho de memórias de ti, de lembranças minhas de nós e da saudade do que poderíamos ter sido. É neste espaço que tento encher de ti que a minha alma ecoa os gritos surdos que o silêncio não cala.    


Paulo Gonçalves Ribeiro

Aninhar-me em Ti...

foto: Dmitry Ageev
Hoje vou esconder-me em ti. Entrar no teu abraço que fazemos porto de abrigo para os nossos corpos fatigados.

Hoje vou deixar o mundo lá fora. Fora de nós, fora do que queremos ser e que o mundo parece não querer deixar.

Hoje vamos ser corpo e mente, dois em um, inseparáveis na urgência de regressar ao local de onde nunca partimos.

Hoje o beijo traz a sofreguidão que a saudade provocou e as mãos têm a avidez do desejo retraído.

Hoje há a pressa de saborear lentamente e há o sentir que arrepia de repente.

Hoje somos só tu e eu. Hoje é o dia sem mais dias.


[Paulo Gonçalves Ribeiro]

domingo, 19 de fevereiro de 2017

O dia em que saíste de mim...

foto: Dmitry Ageev
Hoje foi aquele dia… Hoje notei-me sem ti, dentro de mim. Não sei se desapareceste, pouco a pouco, ou se te foste de repente, deixando-me, afinal, este sabor a tão pouco. Hoje foi o dia em que te desabitei de mim, e o dia em que me desabituei do hábito de ti. Hoje foi o dia em que te desaluguei de mim para me arrendar sem ti.

E agora, estou num lugar vago mas desordenado, um local a precisar de arrumação, antes de necessitar de ocupação, um local a carecer de limpezas antes de ganhar outras certezas. Ainda sei o teu cheiro mas já não te emano, o meu silêncio já não sente a falta da tua voz, a minha pele já não se arrepia ao imaginar o teu toque, os meus olhos veem o que acontece e não o que apetece ver, o sexo já não se engana só com o orgasmo e o prazer não suplanta o ser.

Hoje o meu pensamento, na verdade, já não ilude a minha realidade. Hoje, a mentira desenganou-se e o engano desmentiu-se. Hoje, estou num local vazio de ti mas cheio de mim, e repleto do que quero ser sem ti.

Hoje há uma estória que não continua, porque há um começo que acabou. Tudo o que começa tem de acabar para não se viver eternos recomeços. E hoje acabou. Terminou. Encerrou. Tudo aquilo que existiu e deixou de existir, é agora mera inexistência em mim.


Paulo Gonçalves Ribeiro©

domingo, 12 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

...your mind appeals to me!

Peter Beard
 I enjoy talking to you because your mind appeals to me!




 Frase baseada em George Orwell, mas que bem poderia ter sido eu a redigi-la.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

E gostava que soubesses...

foto: patrick xiong


[…] E gostava que soubesses que já gosto muito de ti, embora ainda não tenha de saber o que é isso de gostar muito de ti. Não faz mal, logo se vê. Não, o que me assusta mesmo muito, quase terror por vezes, é depois não poder voltar atrás, qualquer coisa tão simples como quem põe uma fita de cinema a rebobinar. Quero dizer, depois de começar a gostar de ti como gosto, já não consigo desfazer isso que se fez, sei lá o quê, o que tu quiseres, isso tudo, o que nos traz juntos até aqui, se tu quiseres. […]

[Pedro Paixão], in “muito, meu amor”

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Toque de Música


deste não-futuro que a gente vive?




[…] Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros. […]


[Al Berto], numa entrevista à revista Ler (1989)