Casa de palavras
As palavras preenchem abismos. Constroem pontes de madeira ou aço fino.
Somos todos em forma de palavras. As palavras machucam, doem, cortam. Palavras
súbitas declaram guerra e palavras esperançosas anunciam a paz. Qualquer
palavra é mais do que uma palavras. Há palavras sonoras e palavras murmúrios. Palavras
meigas e palavras bruscas. Umas suplicam, outras arrepiam. Em algumas podemos
confiar, mas só em algumas. Em geral revelam o que outras apressadamente
escondem. Há palavras ditas que nos elevam a alma até ao céu de onde depois
rápidas regressam. Sem nunca esquecer as imprescindíveis palavras obscenas.
Qualquer palavra dá e tira, junta e separa. Por vezes meia palavra é mais do
que suficiente. Cada palavra possui uma origem inviolável. Ninguém sabe quem
disse a primeira, quanto mais todas as outras que se lhe seguiram. Uma palavra
agarra o que a outra repudia. Uma pergunta o que a outra cala. Palavra puxa
palavra. Há palavras que se colam à carne, aos lábios, aos sexos floridos.
Palavras que desejamos esquecer muito e não é possível. Quem criou uma única
palavras que levante o dedo. Só deus conhece a cor de todas as palavras de
todos os dicionários de todas as línguas que os têm. Porque há palavras que
nunca foram escritas, as mais lindas. É na verdade uma traição escrever uma
palavra tentando fixar o imparável espírito que a anima. As palavras vêm do
peito, passam pela garganta e desfazem-se no ar esperando que alguém as apanhe
com as duas mãos cerradas. Nenhuma nos pertence. [...]
[Pedro Paixão], in
“O mundo é tudo o que acontece”
