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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Casa de palavras




Casa de palavras
As palavras preenchem abismos. Constroem pontes de madeira ou aço fino. Somos todos em forma de palavras. As palavras machucam, doem, cortam. Palavras súbitas declaram guerra e palavras esperançosas anunciam a paz. Qualquer palavra é mais do que uma palavras. Há palavras sonoras e palavras murmúrios. Palavras meigas e palavras bruscas. Umas suplicam, outras arrepiam. Em algumas podemos confiar, mas só em algumas. Em geral revelam o que outras apressadamente escondem. Há palavras ditas que nos elevam a alma até ao céu de onde depois rápidas regressam. Sem nunca esquecer as imprescindíveis palavras obscenas. Qualquer palavra dá e tira, junta e separa. Por vezes meia palavra é mais do que suficiente. Cada palavra possui uma origem inviolável. Ninguém sabe quem disse a primeira, quanto mais todas as outras que se lhe seguiram. Uma palavra agarra o que a outra repudia. Uma pergunta o que a outra cala. Palavra puxa palavra. Há palavras que se colam à carne, aos lábios, aos sexos floridos. Palavras que desejamos esquecer muito e não é possível. Quem criou uma única palavras que levante o dedo. Só deus conhece a cor de todas as palavras de todos os dicionários de todas as línguas que os têm. Porque há palavras que nunca foram escritas, as mais lindas. É na verdade uma traição escrever uma palavra tentando fixar o imparável espírito que a anima. As palavras vêm do peito, passam pela garganta e desfazem-se no ar esperando que alguém as apanhe com as duas mãos cerradas. Nenhuma nos pertence. [...]

[Pedro Paixão], in “O mundo é tudo o que acontece”