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| foto: AndyTan |
(…)Passou tempo e não esperava que, um dia, chegasses. Mas passou
tempo. Um dia, chegaste. Caminhávamos na rua. Eu pensava em qualquer coisa que
não era a ideia de chegares, como uma avalanche que arrasta tudo à sua
passagem, como uma multidão a pisar cada pedaço de terra. E a rua ficou deserta
quando nos aproximámos. Éramos desconhecidos no instante que nos olhámos um
para o outro. Passou esse instante e, dentro de nós, conhecemo-nos. Chegaste.
Eu não te esperava. Contigo, trouxeste a ternura, o desejo, e, mais tarde, o
medo. Chegaste e eu não conhecia essa ternura, esse desejo. Em casa, no meu
quarto, neste quarto, revi os teus olhos na memória, a ternura, o desejo. E,
depois daquilo que eu sabia, o medo. E passou tempo. Eu e tu sentimos esse
tempo a passar mas, quando nos encontrámos de novo, soubemos que não nos
tínhamos separado.(…)
[José Luís Peixoto], in “Antídoto” num excerto do conto “CAPRICÓRNIO A
SEUS PÉS”
