
Foto: Arno Bani
conheci um homem que possuía uma cabeça de vidro.
víamos - pelo lado menos sombrio do pensamento - todo o sistema planetário.
víamos o tremelicar da luz nas veias e o lodo das emoções na ponta dos dedos. o latejar do tempo na humidade dos lábios.
e a insónia, com seus anéis de luas quebradas e espermas ressequidos. as estrelas mortas das cidades imaginadas.
os ossos tristes das palavras.
a noite cerca a mão inteligente do homem que possui uma cabeça transparente.
em redor dele chove.
podemos adivinhar uma chuva espessa, negra, plúmbea.
depois, o homem abre a mão, uma laranja surge, esvoaça.
as cidades (como em todos os livros que li) ardem. incêndios que destroem o último coração do sonho.
mas aquele que se veste com a pele porosa da sua própria escrita olha, absorto, a laranja.
a queda da laranja provocará o poema?
a laranja voadora é, ou não é, uma laranja imaginada por um louco?
e um louco, saberá o que é uma laranja?
e se a laranja cair? e o poema? e o poema com uma laranja a cair?
e o poema em forma de laranja?
e se eu comer a laranja, estarei a devorar o poema? a ficar louco?
e a palavra laranja existirá sem a laranja?
e a laranja voará sem a palavra laranja?
e se a laranja se iluminar a partir do seu centro, do seu gomo mais secreto, e alguém a esquecer no meio da noite - servirá o brilho da laranja para iluminar as cidades há muito mortas?
e se a laranja se deslocar no espaço - mais depressa que o pensamento, e muito mais devagar que a laranja escrita - criará uma ordem ou um caos?
o homem que possui uma cabeça de vidro habita o lado de fora das muralhas da cidade.
foi escorraçado.
e na desolação das terras, noite dentro, vigia os seus próprios sonhos e pesadelos. os seus próprios gestos - e um rosto suspenso na solidão.
onde mora o homem que ousou escrever com a unha na sua alma, no seu sexo, no seu coração?
e se escreveu laranja na alma, a alma ficará saborosa?
e se escreveu laranja no coração, a paixão impedi-lo-á de morrer?
e se escreveu laranja no sexo, o desejo aumentará?
onde está a vida do homem que escreve, a vida da laranja, a vida do poema - a Vida, sem mais nada - estará aqui?
fora das muralhas da cidade?
no interior do meu corpo? ou muito longe de mim - onde sei que possuo uma outra razão... e me suicido na tentativa de me transformar em poema e poder, enfim, circular livremente.
[Al Berto], in “O Medo” – Livro Décimo Quinto, “Poeira de Lume”