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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O risco é subtil mas assusta

Billy Kidd
O risco é subtil mas assusta. Uma pessoa nova é um risco novo, uma oportunidade para novas oportunidades — e para novos erros, claro. Cada pessoa é no mínimo um motivo para amar. Cada pessoa é no mínimo um motivo: aproveita-o.
Foi com este pensamento que ele se aproximou da mulher que queria levar ao altar. Antes, contudo, sabia que a teria de levar para outros lugares. Quem sabe um café primeiro, quem sabe depois um passeio à beira-mar, quem sabe depois um jantar, quem sabe depois um jantar mais estendido no tempo (e quem sabe na cama)? Para já só tinha de perceber como lhe dizer que a queria sem lhe dizer que a queria. O mais curioso na sinceridade é que raramente pode ir à frente de tudo o resto. Antes da sinceridade vem a possibilidade: o que pode dizer-se. A sinceridade chega mais tarde, bem mais tarde, quando a sedução se faz por outros caminhos. Antes é urgente fascinar: lançar a âncora. E as âncoras raramente são sinceras. Nunca ninguém que quer amar alguém que não conhece diz «olá, eu sou o Pedro e quero amar-te». E seria tão mais simples. Mas as pessoas perdem tempo com a sedução para o amor — talvez porque a sedução para o amor seja uma das mais encantadoras partes do amor.
Há tantos casais que se apaixonaram pela sedução e não por quem os seduziu.
Então aproximou-se, quis dizer alguma coisa mas a voz parou, ela também parou, ficaram alguns segundos (não devem ter sido muitos mas para ele foi uma vida inteira a olhá-la e a guardá-la para mais tarde recordar, sabe-se lá se teria oportunidade de a ver de novo) suspensos no tempo, um no outro, na verdade, até que ela mesmo sem falar disse «quero», ele sem falar disse «vamos tentar» — e quando as palavras finalmente chegaram só disseram as trivialidades que sempre se dizem: «boa tarde, não sou de cá e gostaria de saber onde fica a praça de tal», «boa tarde, a praça de tal fica na rua de tal junto à loja de tal», «e isso é longe ou posso ir a pé», «é mesmo aqui ao lado», «que bom», «eu por acaso estou mesmo a caminho dessa zona e posso acompanhá-lo lá», «isso seria excelente, obrigado», «ora essa, ora essa», «Pedro», «Bárbara», e o resto ficará para a história, a deles, claro está, que esta nossa acabou agora mesmo, peço desculpa, e até à próxima, esperemos que por dentro de outro amor qualquer.

 [Pedro Chagas Freitas], in “Prometo Perder”

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

dedos e dedos

foto: Billy Kidd

voa comigo nos ombros da noite
enlaçados como dedos e dedos
na ternura completa das mãos.


inventemos asas até que nos
tenham como irmãos os pássaros
e as crianças nos persigam
pelo areal - o voo que é delas também.


acredita que o nosso olhar tocará um dia
o horizonte com tal força que a nossa palavra
ficará redonda, redonda como os ombros
desta noite em que te convido a descobrires
comigo o amor enorme que a maré nos tem
quando nos cobre os pés e nos obriga a nascer.

[Vasco Gato]