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| Billy Kidd |
O risco é
subtil mas assusta. Uma pessoa nova é um risco novo, uma oportunidade para
novas oportunidades — e para novos erros, claro. Cada pessoa é no mínimo um
motivo para amar. Cada pessoa é no mínimo um motivo: aproveita-o.
Foi com este
pensamento que ele se aproximou da mulher que queria levar ao altar. Antes,
contudo, sabia que a teria de levar para outros lugares. Quem sabe um café
primeiro, quem sabe depois um passeio à beira-mar, quem sabe depois um jantar,
quem sabe depois um jantar mais estendido no tempo (e quem sabe na cama)? Para
já só tinha de perceber como lhe dizer que a queria sem lhe dizer que a queria.
O mais curioso na sinceridade é que raramente pode ir à frente de tudo o resto.
Antes da sinceridade vem a possibilidade: o que pode dizer-se. A sinceridade
chega mais tarde, bem mais tarde, quando a sedução se faz por outros caminhos.
Antes é urgente fascinar: lançar a âncora. E as âncoras raramente são sinceras.
Nunca ninguém que quer amar alguém que não conhece diz «olá, eu sou o Pedro e quero
amar-te». E seria tão mais simples. Mas as pessoas perdem tempo com a sedução
para o amor — talvez porque a sedução para o amor seja uma das mais
encantadoras partes do amor.
Há tantos
casais que se apaixonaram pela sedução e não por quem os seduziu.
Então aproximou-se, quis dizer alguma coisa
mas a voz parou, ela também parou, ficaram alguns segundos (não devem ter sido
muitos mas para ele foi uma vida inteira a olhá-la e a guardá-la para mais
tarde recordar, sabe-se lá se teria oportunidade de a ver de novo) suspensos no
tempo, um no outro, na verdade, até que ela mesmo sem falar disse «quero», ele
sem falar disse «vamos tentar» — e quando as palavras finalmente chegaram só
disseram as trivialidades que sempre se dizem: «boa tarde, não sou de cá e gostaria
de saber onde fica a praça de tal», «boa tarde, a praça de tal fica na rua de
tal junto à loja de tal», «e isso é longe ou posso ir a pé», «é mesmo aqui ao
lado», «que bom», «eu por acaso estou mesmo a caminho dessa zona e posso
acompanhá-lo lá», «isso seria excelente, obrigado», «ora essa, ora essa»,
«Pedro», «Bárbara», e o resto ficará para a história, a deles, claro está, que
esta nossa acabou agora mesmo, peço desculpa, e até à próxima, esperemos que
por dentro de outro amor qualquer.
[Pedro Chagas Freitas], in “Prometo Perder”

