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quarta-feira, 27 de março de 2013

Farto... [ Farta... ]

foto: Christian Coigny


Estou farto. Farto das mentiras, dos medos, dos terrores. Farto das vontades, das saudades. Estou farto. Farto de calar, de chorar, de ceder. Farto de olhar, de ouvir, de saber. Farto de ser.
Estou farto. Farto de um país parado, de um país anestesiado. Farto dos políticos que mentem, que assustam, que controlam. Estou farto. Farto de um país calado.
Estou farto. Farto de projectos que não andam, farto de projectos que se encolhem, de verdades que se escolhem. Estou farto. Farto das cunhas, dos tachos. Dos senhores que cozinham, dos imperadores que dominam. Farto das estratégias comezinhas, das ambições pequeninas. Estou farto.
E farto das palmadas nas costas, dos yes men que lambem bostas. Farto. Farto. Farto de quem se verga, de quem se entrega, de quem se nega. Estou farto. Da oposição que não se opõe, do poder que só dispõe – farto do presidente, do vereador, do director, do colaborador. Farto do excelentíssimo doutor, do venerável senhor. Farto.
Estou farto. E quero. Quero o país a pensar, a olhar, a falar. Quero a oposição a apontar, a incomodar, a saltar. Quero. Nada de medo, nada de fuga, nada de falso. Quero.
Quero. Ideias, conceitos, futuros. Quero o desempregado ocupado, quero o empreiteiro dominado. Estou farto. E quero. A empresa a trabalhar, o trabalhador a ganhar. Quero. Quero a liberdade apregoada, quero Abril na peugada. Quero.
E sonho. Com a democracia instaurada, com a decisão partilhada, com a verdade sem espada. Quero. E sonho. Sonho com a imprensa que não se vende, com a pena que não se rende, com a censura que não se acende. Quero.
E sonho. Com o jornalista que investiga, com a chantagem que não se obriga, com a morte da intriga. Sonho. E quero. Quero que se interrogue quem manda, que se pergunte o que se ordena, que se questione com o que se acena. Quero.
Porque estou farto. Farto de quem se sente farto.
Porque estou farto. Farto de estar farto.


[Pedro Chagas Freitas],in "Só os Feios é Que São Fiéis"

sexta-feira, 20 de março de 2009

Vertigem



somos tão novos e estamos tão perdidos. o teu silêncio
dentro dos gritos das árvores, o meu silêncio sobre o
entardecer. seria feliz se pudesse dizer-te: vem,
vamos fugir de mãos dadas, amor.

[José Luís Peixoto], in “A Casa, a Escuridão”