Foto: David H. Collier
Silêncio
Como se o momento em que alguém se preparasse para dizer uma palavra ficasse suspenso. Instantes a acumularem-se sobre esse tempo cada vez mais longo. A suspeita de que toda a eternidade existe dentro desse momento parado. E, se alguém deixasse cair uma pedra na profundidade desse silêncio, poderia esperar que passassem séculos, mas nunca iria ouvi-la tocar no chão e apenas ficaria livre no momento em que acreditasse que a pedra se tinha desfeito em tempo e em silêncio.
.
O número de mortos e o número de desaparecidos. Uma conversa que se ouve no autocarro enquanto se olha pela janela e não se consegue ver a paisagem que passa lá fora porque apenas se consegue ouvir aquela conversa de interjeições, de palavras inacabadas entre uma mulher e um homem. Milhares de crianças a fazerem as mesmas perguntas em todas as línguas do mundo. A hora certa marcada por apitos rectos, pedaços de rectas nos noticiários das estações de rádio. São catorze horas. São dezassete horas. São vinte horas em Portugal continental e no arquipélago da Madeira, menos uma nos Açores. O tom de voz dos políticos. Os comentários por telefone de pessoas que estão no outro lado do mundo. As imagens em movimentos na televisão. Um jornalista a dizer "uma história entre tantas outras".
.
E silêncio. Nem o movimento das ervas sob uma aragem. Nem, por exemplo, um olhar pela janela pousado na distância. Apenas uma cor opaca e constante. As formas nítidas e paradas de todos os objectos. Finalmente nítidas no momento em que se tornam definitivas e inúteis. A solidão é feita de silêncio. As casas tinham sido feitas de silêncio e não sabíamos. Alguém contou todos os segredos. Num momento sem palavras, alguém contou todos os segredos e ficou apenas o silêncio.
[...]
E silêncio. Como se os homens ou a terra fossem capazes de criar uma música que corresse dentro do silêncio, como vento invisível dentro do ar invisível. Nenhuma palavra e a ausência de cada palavra esculpida com silêncio. O significado daquilo que ninguém sabe dizer. Silêncio atirado de encontro às palavras. A distância inconcebível e insuportável entre nós e todos os outros. Pedras. Terra. Lama. E silêncio. Silêncio. Silêncio.
.
[José Luís Peixoto]