Lisboa, 24 de Dezembro de 1967
Meu Querido Amor
Senti tanto a tua falta hoje – em quase 20 anos de casados é a primeira
vez que passamos separados esta noite. Separados materialmente, claro, porque
nunca, nunca deixaste o meu pensamento, meu Querido.
Tivemos a D. Eugénia e o marido [Joaquim Jacobetty Rosa] para jantar
connosco. Comemos uma canjinha e um pouco de peru, daquele de que eu cortei as
fatias do peito para te levar e que eu própria preparei.
Portámo-nos todos à altura, embora sem festas nem saúdes. Tu estavas
bem presente no pensamento de todos nós – para quê fazer saúdes? Foi um jantar
simples, como qualquer outro. Teria sido, como tem sido sempre, um jantar de
festa se tu estivesses. O Pai esteve bem, distraiu-se a conversar e por volta
das 11 horas foi-se deitar.
Ainda apareceram os nossos afilhados para nos darem um abraço e trazerem um presente à Isabel.
Ainda apareceram os nossos afilhados para nos darem um abraço e trazerem um presente à Isabel.
Mas eu, meu querido, eu que não quero que ninguém me veja senão de
olhos enxutos e cheia de coragem, afastei-me um pouco por volta das 10 e 1/4,
10,30 e pensei em ti com uma intensidade tal que tinha a impressão de que o meu
coração pulsava em todo o meu corpo – era um bater tão forte que a minha cabeça
parecia uma caixa de ressonância. Pensei em ti com toda a força – passei as
minhas mãos ternamente pelos teus cabelos e fechei-te os olhos com um beijo tão
cheio do meu Amor – que tu deves ter sentido a minha presença junto de ti.
Disseste-me que às 10,30 adormecias e eu quis estar só nesse momento em que
pensei que te deitavas e adormecias. Para te acompanhar, para pensar que não
estavas tão só nesta noite que foi para nós sempre uma noite de família em que
nunca nos separámos. Foi tanta a intensidade com que pensei em ti, sozinha, que
quase se tornou palpável a tua presença junto de mim – as pancadas do meu
coração eram tão fortes que eu tinha a impressão de que sentia o teu próprio
coração bater com o meu. Acredita, meu Amor.
Podem separar-nos, arrancar-te fisicamente de junto de nós como o estão fazendo agora. Mas há uma coisa de que eu estou segura e de que tu podes ter a certeza – eu estarei sempre contigo, meu Querido!
Podem separar-nos, arrancar-te fisicamente de junto de nós como o estão fazendo agora. Mas há uma coisa de que eu estou segura e de que tu podes ter a certeza – eu estarei sempre contigo, meu Querido!
Sinto-me de tal modo identificada contigo, todos estes anos em que
caminhamos juntos estão tão repassados de Amor, de ternura, de compreensão, que
é impossível separarem-me de ti – eu estarei sempre onde tu estiveres. «Não há
machado que corte a raiz ao pensamento» diz um poema [de Carlos de Oliveira] e
é verdade! O pensamento atravessa as grades mais fortes, não conhece paredes
nem montanhas e vai para onde nós quisermos... ainda! Por isso podem as grades
ser fortes, as paredes espessas, as distâncias enormes que eu estarei presente
onde estiveres, sobretudo se te sentir só, como agora, injusta e incrivelmente
só.
Não sei se conheces uns versos lindos de uma poetisa nossa amiga
[Sophia de Mello Breyner Andresen], que diz:
«Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o temor da morte
Para ver a verdade, para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei!».
Esses maravilhosos versos dizem bem o que eu te poderei dizer de uma maneira mais desajeitada.
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«Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o temor da morte
Para ver a verdade, para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei!».
Esses maravilhosos versos dizem bem o que eu te poderei dizer de uma maneira mais desajeitada.
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Os beijos mais amigos dos teus Filhos, Pai e Tio Nobre.Abraços, muitos abraços de toda a família e amigos.
Para ti sempre toda a minha ternura mais profunda e os beijos mais
carinhosos.
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Sempre tua
Maria de Jesus
Maria de Jesus Simões Barroso Soares (Olhão, 2 de maio de 1925 –
Lisboa, 7 de julho de 2015)
Mário Alberto Nobre Lopes Soares (Lisboa, 7 de dezembro de 1924 – Lisboa,
7 de janeiro de 2017)
