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segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

ºº Da vida das Marionetas ºº


Foto: Gundega Dege

Porque não me disseste logo ao princípio que eras casado antes que me prendesse a ti? Porquê tantas mentiras, tantas desculpas, tantas respostas evasivas, apenas o número de telefone do emprego, não o número de telefone de casa, a aldrabice de que moravas com a tua mãe, a tua mãe doente e o telefone a enervá-la, depois a história grave, quase de lágrima no olho
- Vou dizer-te a verdade
a seguir a um discurso patético
- Não te disse a verdade antes por medo de perder-te e a treta de uma relação sem amor
- Não sinto nada por ela
mais irmãos que outra coisa, nunca se tocam, não têm relações, ela doente dos nervos, dependente de ti, tentativas de suicídio, angústias e tu com pena dela
- Unicamente pena percebes?
e preocupado com os filhos coitados
- O que as crianças sofrem com isto
o teu dever de dar-lhes uma vida equilibrada
- Não pediram para vir a este mundo pois não?
fazendo, ao mesmo tempo, de pai e de mãe, a tua garantia de que isto não há-de durar sempre, é uma questão de meses, um ano vá lá, dois anos no máximo, os miúdos crescem entretanto, amadurecem, equilibram-se, não é fácil viverem com uma mãe que nem da cama sai, só lágrimas, só instabilidade, só caprichos, só gritos, tenho de lhe fazer ver as coisas pouco a pouco, de me aconselhar com o médico e ontem a Fátima para mim que te viu de braço dado com ela no cinema, que lhe segredavas sorrisos, que lhe davas a mão, que trazias aliança

(onde escondes a aliança quando estás comigo?)

que fingiste não a ver quando passou por ti, a Fátima ao passar por ti
- Olá Rui
e tu a esconderes o alarme em sobrancelhas de espanto, a tua mulher a afastar-se zangada, a Fátima ainda a ouviu repetir
- Olá Rui?
e tu embrulhado em explicações aflitas, uma pessoa de quem não te lembravas, uma antiga colega talvez, a prima de uma prima, tu a tranquilizá-la com um beijo, não uma doente, uma mulher normalís­sima, segundo a Fátima parecida comigo com mais cinco ou seis anos, também de olhos claros, também loira com uma carteira igual à car­teira que me deste nos anos e agora diz-me lá o que é que eu faço, como queres que te aceite, continue contigo, feita palhaço, a engolir fanta­sias, o que é que eu faço, conta-me, com um homem que me vigariza, me engana, me jura o que não há-de cumprir, o que é que eu faço com um escroque, Rui, és um escroque, não me toques, não fales, não me venhas com conversas

(mexes tão bem nas palavras!)

não me ponhas a mãozinha aí, tira a mãozinha daí, disse-te para tirares a mãozinha daí, vai-te embora antes que eu descubra o telefone da tua casa, liga para lá, conta tudo à tua mulher, explica-lhe o safardana que és, quero as chaves em cima desta mesa, quero que me desapareças da vista, me desampares a loja, metes-me nojo sabias, a única coisa que sinto por ti é nojo, repugnância, não passas de um rato morto, nem sequer te odeio, desprezo-te, nem percebo como não vo­mito só de olhar para ti, se ao menos fosses inteligente, bonito, e não és inteligente nem bonito, para te falar com franqueza

(e eu falo-te com franqueza é a nossa diferença)

és um velho, cheiras a velho, se visses bem a tua cara, a tua barriga, as tuas rugas, o cabelinho branco, a careca, não vales nada Rui, con­vence-te que não vales nada, admite de uma vez por todas que não va­les um chavo, desonesto, hipócrita, aldrabão, porque não disseste logo ao princípio que eras casado antes que me prendesse a ti, porque não foste sincero, se tivesses sido sincero eu até aceitava compreendes, so­fria mas aceitava, esperava que te divorciasses, lutava por ti, dava-te o que nunca dei a ninguém e que não merecias mas dava-te

(não me interrompas)

onde é que eu ia, ia que te dava o que nunca dei a ninguém, não me interrompas Rui, e que não merecias mas dava

(pedi-te que não me interrompesses não pedi?)

e que não merecias mas dava-te, não me pegues na mão, não te sentes aí, porque me fizeste isto Rui, achas que mereço

(afasta-te)

achas que mereço isto, que mereço sofrer

(por amor de Deus afasta-te)

achas que devo ser infeliz por tua causa, responde se achas que de­vo ser infeliz por tua causa, não sorrias, não penses que te desculpo com essa facilidade toda, és velho, cheiras a velho, repara na tua cor­cunda, és um velho, convence-te, um gaiteiro de um velho e hás-de morrer desajeitado Rui, não hás-de compreender, por dúzias de anos que dures, que o fecho do soutien é para o outro lado que abre.

[António Lobo Antunes]

sábado, 18 de outubro de 2008

..."Andorinha, andorinha, minha andorinha"


Foto: Gundega Dege

..."Andorinha, andorinha, minha andorinha", pediu o príncipe uma vez mais,"fica comigo mais uma noite"... Durante todo o dia seguinte, a andorinha ficou sentada por sobre o ombro do príncipe, contando-lhe histórias do que tinha visto em terras distantes. Falou-lhe dos íbis vermelhos, que permanecem em longas filas nas margens do Nilo e que apanham peixes dourados com os seus bicos; falou-lhe da Esfinge, tão velha como o próprio mundo, que vive no deserto e que tudo sabe; falou-lhe dos mercadores, que caminham vagarosamente junto dos seus camelos e levam nas suas mãos colares de âmbar; falou-lhe do Rei das Montanhas da Lua, que é preto como o ébano e venera um grande cristal, da grande cobra que vive nas palmeiras e que vinte sacerdotes alimentam, com bolos de mel... Por fim chegou a neve e com a neve veio o gelo. As ruas pareciam feitas de prata, de tão lisas e brilhantes que estavam; como punhais de cristal os sincelos enfeitaram os beirais das casas... Até que um dia a andorinha soube que ia morrer. Apenas lhe restavam forças para voar uma vez mais até ao ombro do príncipe. "Adeus querido príncipe!", murmurou, "deixas-me beijar a tua mão?"."Ainda bem que partes finalmente para o Egipto, minha andorinha", disse o príncipe, "ficaste aqui demasiado tempo; mas deves beijar-me os lábios porque eu adoro-te. "Não é para o Egipto que eu vou", respondeu a andorinha,"Vou para a Câmara da Morte. Ou não é a morte a irmã do sono?"...


[Oscar Wilde] in “O Príncipe Feliz”