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terça-feira, 3 de agosto de 2010

[…] no centro da cidade, um grito…



foto:Jan Saudek

[…] no centro da cidade, um grito…

[…] no centro da cidade, um grito. Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar. E sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado, tem a dimensão de um túmulo, e todos os seus gestos são uma sinalização em direcção à morte […]. Mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria do mar. Medito no meu regresso. Possuo para sempre tudo o que perdi. E uma abelha pousa no azul do lírio, e no cardo que sobreviveu à geada.[…] Bebo, fumo, mantenho-me atento, absorto – aqui sentado, junto à janela fechada. Ouço-te ciciar amote pela primeira vez, e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo. Recolho o mel, guardo a alegria, e digo-te baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge.

[Al Berto], in “O Último Coração do Sonho”

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

pernoitas em mim


foto: Jan Saudek

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória...amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes


[Al Berto], in "O Medo"

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã...


Foto: Jan Saudek

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços. (…)
e não direi

nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não
_________________________________________________[estragar
a perfeição da felicidade.



[José Luís Peixoto], in “A Criança em Ruínas”