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| Photograph by Rob Verhorst |
Pergunto-me se o meu irmão chegará
a ler isto alguma vez. Sem dúvida que o repudiaria, espero que com gentileza,
diria talvez que o mar é todas as coisas que eu disse, máquinas de sonhar, um
olho de cristal, tudo isso, mas embora seja verdade é melhor conservar estas
coisas em segredo. Agora poderia dizer-lhe algo que nunca soube quando vivíamos
juntos. Que é um luxo esse de se deixarem coisas no tinteiro, um luxo de que
muito poucos podem disfrutar. Os filhos do vento e da água não precisam de se
esmerar acerca daquilo que o seu sangue conhece, mas quantos podem controlar
essa economia, e quantos mais se vêem obrigados a arranhar e escavar o mundo de
mil diferentes maneiras, apenas para estabelecer a mínima conexão entre as suas
vidas. Os heróis e os semi-heróis, os meninos ungidos aspirando pelas
constelações que os esperam, esses podem desdenhosamente não implorar ao mundo
horizontal com palavras e metáforas organizadas, mas eu careço do seu
equilíbrio; como tantos outros, eu não aspiro a nada, não estou a ponto de
ascender à minha glória, de modo que devo mover-me torpemente entre as minhas
amarras, devo negociar o amor que vou alcançar, fora da minha breve história
particular não haverá paixão que me revele, ninguém em particular me reclamou,
de modo que me devo dedicar à confusa política do general e gritar aos deuses
para demonstrar a sua irrealidade, tal como o meu irmão e eu quando
embaciávamos os vidros das janelas com o nosso bafo, para que pudéssemos
desenhar neles com os nossos dedos. Ele desenhava perfis, para os quais eu
desenhava complicados olhos, e ninguém te pede que decidas qual dos nossos
esforços foi mais significativo.
[Leonard Cohen] (n. 21 de Setembro
de 1934, Canadá - m. 7 de Novembro de 2016, Los Angeles), in “Filhos da Neve”.
