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sábado, 7 de janeiro de 2017

Fecho os olhos

foto: Lilya Corneli



fecho os olhos. vejo luzes de cidades distantes. a noite
distante. vejo o brilho de um sonho tão impossível.
a escuridão é absoluta. a escuridão é infinita.
todos os cegos sabem que a escuridão é a morte.
fecho os olhos. vejo aquilo que se vê com os
olhos fechados.



[José Luís Peixoto], in “A Casa,A Escuridão”

domingo, 25 de janeiro de 2009

Braille


Foto: Lilya Corneli

Leio o amor no livro
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.
.
[Nuno Júdice], in "Geometria Variável"

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Tropeço de Ternura por Ti


.
É simples a separação.
Adeus.
Desenlaçado o último abraço, uma pressa de dar costas um ao outro.
Já não há gestos. O derradeiro (impossível) seria não desfazer o abraço.
Pressa de cada retornar o outro na teia lenta da remembrança.
Não desfazer o abraço. Ficar face encostada ao niagara dos cabelos.
Sobram fotografias, voz no gravador, um bilhete na caixa de correio. Sobra o telefone.
Tensão-telefone. Experimentada. Sofrida.
Tensão-telefone. Possibilidade de voz póstuma.
No gravador, voz de ontem, de anteontem. De há anos.
Sobra o telefone. Mudo.
Retininte?
Sobrarão as cartas. Sobra a espera.
Na teia da remembrança, retomo-te em memória recente: na praia de ternura onde nos enrolámos e desenrolámos desesperados de separação.
Sobra a separação.
.

Publicado no Diário de Lisboa, a 5 de Fevereiro de 1970

[Alexandre O’Neill], in Anos 70, poemas dispersos

domingo, 11 de janeiro de 2009

Fim


Lilya Corneli

quando voltaste, os teus olhos e as tuas mãos eram
chamas a falarem para mim.

eu estava na cama onde nasci vezes de mais.

peço-te, nunca esqueças o meu olhar de quando
voltaste.

era de noite. eu não esperava mais nada.

e tu voltaste. tão bonita.
és tão bonita. no mundo, deve haver um jardim tão
bonito como tu.

voltaste.

eu sorri tanto. fui feliz e, nesse momento, morri.

[José Luís Peixoto], in “A Casa, a Escuridão”