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domingo, 25 de setembro de 2011

Ausência

foto: Maxim Chelak


"Quero dizer-te uma coisa simples: a tua ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma; mas que não deixa, por isso, de deixar alguns sinais - um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes tivessem roubado o tacto. São estas as formas do amor, podia dizer-te; e acrescentar que as coisas simples também podem ser complicadas, quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade. Porém, é o sonho que me traz a tua memória; e a realidade aproxima-me de ti, agora que os dias correm mais depressa, a as palavras ficam presas numa refracção de instantes, quando a tua voz me chama dentro de mim - e me faz responder-te uma coisa simples, como dizer que a tua ausência me dói."
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[Nuno Júdice],in "Pedro,lembrando Inês"

sábado, 21 de fevereiro de 2009

A Ninfa e o Sátiro

Ninfa e Sátiro (1860), de Alexandre Cabanel


Deitada na sua cama de ervas, a ninfa
espera que o sátiro regresse do bosque para a cobrir
com o manto do amor. Um sonho atravessa
a sua cabeça: o fio que se estende do centro
do labirinto até à porta do mar. À medida que
ela avista a luz da saída, um pássaro negro corta
o fio que fica para trás, impedindo que o sátiro
descubra o seu rasto.

No prado onde a ninfa se deita, os pastores
espreitam a sua nudez: a pele branca do corpo,
exposta ao sol da tarde; e os seios oferecidos
ao céu, para que as nuvens os invejem. Só o sátiro
não chega: perdido na espessura do bosque, não
tem nenhum fio que o conduza pelos seus caminhos,
até à saída onde a ninfa o espera. Mas os pastores
rodeiam-na; e ela, de olhos fechados, finge
que sonha, enquanto eles cobrem a sua nudez
com as folhas do campo.

A ninfa, porém, sacode-as com as mãos, e
o seu corpo nu, à vista dos pastores, continua
à espera do sátiro perdido nos bosques.

[Nuno Júdice], in "Geometria Variável"

domingo, 25 de janeiro de 2009

Braille


Foto: Lilya Corneli

Leio o amor no livro
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.
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[Nuno Júdice], in "Geometria Variável"