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domingo, 1 de fevereiro de 2009

Trata-me Como as Páginas de Um Livro!


"Trata-me Como as Páginas de Um Livro!"
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O “livrocorpo”

"O Livro de Cabeceira" de Sei Shonagon é uma obra da literatura clássica japonesa, escrita entre 996 e 1021 por uma dama da corte imperial. É um diário, escrito (com sedução e erotismo onde expõe os seus desejos de viver) por uma mulher inteligente e conhecedora dos clássicos chineses. Algo pouco comum para uma mulher naquela época.
Os treze poemas que surgem no filme “The Pillow Book” de Peter Greenaway foram traduzidos para o português a partir dos seus originais em inglês. No filme esses poemas são escritos em japonês sobre os corpos de diversos homens, originando o conceito de “livrocorpo”, isto é, a caligrafia sobre a pele.






The Pillow Book

The Pillow Book narra a vida de uma jovem mulher japonesa chamada Nagiko Kiohara (Vivian Wu), decorrendo a acção durante as três últimas décadas do século XX. A história inicia-se mostrando cenas de sua infância em Kyoto, em especial seus aniversários, nos quais são celebrados dois rituais: I. O pai escreve, com pincel e tinta colorida, um solene e sensual cumprimento no seu rosto; II. A sua tia lê-lhe um clássico da literatura japonesa, “O livro de cabeceira” de Sei Shonagon.Nagiko tem o mesmo prenome da antiga escritora e a sua tia a convence a manter um diário no mesmo estilo. O seu pai é calígrafo e escreve histórias infantis, nas quais se resolvem mistérios através do emprego da Matemática. Porém, para publicar seus trabalhos ele depende da boa-vontade de um editor e tem que se sujeitar aos seus desejos para sustentar sua família. Aos cinco anos, Nagiko vê o seu pai ser sodomizado pelo editor, acto que se repete a cada aniversário seu, como uma sombra aos rituais familiares.No seu 18º aniversário, o pai deixa de pintar o seu rosto e ela é persuadida a casar com um sobrinho do editor, um arqueiro fanático. O seu marido recusa-se a continuar o ritual da pintura e ela dedica-se a seu diário, numa obsessiva identificação com Sei Shonagon.Quando o conflito se exacerba, ele queima o diário de Nagiko e ela, em resposta, deita fogo à casa.Nagiko foge, então, de tudo e vai para Hong-Kong, onde se torna uma estilista de moda. Um fotógrafo, Hoki, fica apaixonado por ela e passa a persegui-la. Durante esse período de tempo, ela passa a encontrar-se com calígrafos, na esperança que eles tragam de volta as memórias dos aniversários da infância, quando seu pai escrevia na sua face. Tal como seu pai trocava caligrafia por sexo com o editor, ela troca sexo por caligrafia no seu corpo.Depois de muitos casos com calígrafos, ela encontra no Café-Typo – uma café damoda – um tradutor inglês chamado Jerome, que quebra o padrão sugerindo que ela é que deveria fazer a escrita. Ela deveria tornar-se o pincel e não o papel.Nagiko, a princípio, recusa mas começa a experimentar escrever no seu próprio corpo e Hoki fotografa seus primeiros trabalhos e leva-os ao editor, que os rejeita. Ela vai procurar o editor, decidida a executar o mesmo jogo de sedução, mas sente repulsa ao chegar no escritório do editor, pois um gramofone toca a mesma música que ouvia na infância enquanto seu pai era sodomizado. Nessa visita, Nagiko descobre que Jerome é amante do editor e então resolve seduzi-lo. Eles acabam por se apaixonar e ela acredita que finalmente encontrou o amor que irá substituir o pai, a pessoa que irá escrever na sua face por ocasião de seus aniversários, dando sequência ao ritual. Nesse momento de paixão, ela revela que gostaria de se tornar uma escritora, como uma forma de honrar seu pai.Jerome sugere um plano, no qual ela escreveria no seu corpo e ele se apresentaria ao editor. Compondo sobre o corpo de Jerome uma elaborada mensagem caligráfica, Nagiko propõe ao editor (“A AGENDA”) uma série de 13 livros tendo como tema “O AMANTE”.

[Adaptado do Ensaio do Prof. Dr. Rafael Raffaelli]


Dos trezes livros, deixo aqui o 1º e o 6º:



O PRIMEIRO LIVRO - A AGENDA
(escrito no corpo de Jerome)

(Pescoço)
"Eu quero descrever o Corpo como um Livro
Um Livro como um Corpo
E este Corpo e este Livro
Será o primeiro volume
De treze volumes"

(Caixa Torácica)
A primeira grandeza do livro está no torso
Sede dos pulmões
Que sopra o vento que seca a tinta.
Sede do coração
Que bomba a tinta
Que é sempre vermelha
Antes que seja negra
O coração e os dois pulmões são mantidos rectos
Perto, mais não se delimitando
Protegidos pela cobertura da caixa torácica
Cobertos por enegrecidos por título enegrecidos de papel como marca d'água
O sopro da inspiração corre entre eles
Desenhados do ar por sua influência conjunta.

(Nuca ao Cóccix)
Nenhuma função do livrocorpo é singular
Se um serviço múltiplo puder ser realizado.
Assim o ar da inspiração
Divide a passagem
Com sais, palavras
Sentenças, adoçantes parágrafos
Todos desmoronam em agitação nas páginas ruminantes
Para jazer em fileiras seriadas como hastes de arroz,
Num campo, ou os pontos da costura num tatami,
Pacientemente aguardando a irrigação
Por água ou visão
Mesmo que em mil anos não surja um leitor

(Barriga)
A segunda grandeza do livro está na barriga,
Fábrica para a mistura dos materiais,
Um laboratório de selecção e fiação,
Retendo e relembrando,
Uma editora em fluxo contínuo,
Estampada com o corte denteado do umbigo,
Raramente ocioso, nunca parado,
Dividindo o espaço com preparações
Para o futuro com a ironia da economia.
Futuro e passado partilhando a mesma rodovia.
Livrocorpo sempre mostrando, na sua história, evoluções.

(Pénis e Escroto)
Eu sou a muito necessária
Coda.
O pedaço-rabo,
O sempre reprodutor Epílogo.
O derradeiro parágrafo pendente
Esta é a razão
Para que o próximo livro
Brote.



SEXTO LIVRO - O LIVRO DO AMANTE
(escrito em Jerome, transformado no livro de cabeceira)

(Pescoço)
Este é um livro e um corpo
Que é tão tépido ao toque
Meu toque.

(Peito)
Eu pressionei este livro em meus olhos
Na minha testa, nas minhas bochechas,
Eu mantive este livro aberto sobre minha barriga.
Eu me sentei sorrindo sobre este livro
Até que minha carne se amalgamou nas suas capas.
Eu me sentei gargalhando neste livro até que humedeci
Suas capas com meu corpo.
Eu envolvi este livro em minhas pernas.
Eu me ajoelhei sobre este livro até meus joelhos sangrarem.

(Barriga e Coxas)
Este livro e eu nos tornamos indivisíveis
Eu coloquei meus pés nas últimas páginas deste livro,
Confiante em estar tão mais alto no mundo
Como eu nunca estive antes.
Possa eu manter este livro para sempre
Possa este livro e este corpo sobreviverem ao meu amor.
Possa este corpo e este livro me amarem tanto quanto
Eu amo sua extensão, sua gramatura, sua solidez, seu texto
Sua pele, suas letras, sua pontuação, suas quietas
E suas ruidosas páginas. Suas delícias sôfregas.
Livro, corpo – amo-te.

(Costas)
Ele respira gentilmente na sua primeira página.
Ele respira mais fundo conforme as páginas viram.
Quando o ritmo de leitura é obtido
As palavras ganham uma velocidade urrada
E as páginas correm.
Eu corri com essas páginas.
Ao seu final há um suspiro e o livro
Fecha-se em contentamento.
O leitor, de bom grado, começa de novo.
Nádegas Corpo e livro estão abertos.
Face e página.
Corpo e página.
Sangue e tinta.
Ponta dos dedos, debrum do rebordo.
A superfície do limite de cada página é tão macia
As marcas d’água são como veias fluidas.
As páginas são tão harmoniosas na sua proporção
Que desarmonia em seu conteúdo é impossível.


"Trata-me Como as Páginas de Um Livro!"


Photography: Sacha Vierny
[The Pillow Book - O Livro de Cabeceira - Sei Shonagon]