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| foto: Evgenia Karica |
Quando chegaste, surgiste sem que eu te esperasse
e entraste por mim feita onda rebelde, irrompendo pela calmaria da praia.
Apareceste do nada para te fazeres no meu todo, ocupaste o vazio que me
preenchia e encheste o oco que me esvaziava.
Quando partiste, levaste a minha precisão de
ti quando mais te precisava. Desconfio que foste sem me levares mas eu sei que
fiquei, tendo ido. Saíste de ti para não me levares contigo; deixaste de ser tu
para não me teres em ti. Fugiste, deixando para trás o que querias ser e
levando o que és, sem que sejas.
Demoraste toda a minha existência a chegar mas
não te prolongaste a existir ao meu lado. Pressinto que foste sem levar nada de
mim mas sinto que muito de mim foi contigo.
E é este espaço, de novo, esvaziado que
preencho de memórias de ti, de lembranças minhas de nós e da saudade do que
poderíamos ter sido. É neste espaço que tento encher de ti que a minha alma
ecoa os gritos surdos que o silêncio não cala.
Paulo Gonçalves Ribeiro


