[Pedro Chagas Freitas], in "Prometo Perder"
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
O risco é subtil mas assusta
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| Billy Kidd |
O risco é
subtil mas assusta. Uma pessoa nova é um risco novo, uma oportunidade para
novas oportunidades — e para novos erros, claro. Cada pessoa é no mínimo um
motivo para amar. Cada pessoa é no mínimo um motivo: aproveita-o.
Foi com este
pensamento que ele se aproximou da mulher que queria levar ao altar. Antes,
contudo, sabia que a teria de levar para outros lugares. Quem sabe um café
primeiro, quem sabe depois um passeio à beira-mar, quem sabe depois um jantar,
quem sabe depois um jantar mais estendido no tempo (e quem sabe na cama)? Para
já só tinha de perceber como lhe dizer que a queria sem lhe dizer que a queria.
O mais curioso na sinceridade é que raramente pode ir à frente de tudo o resto.
Antes da sinceridade vem a possibilidade: o que pode dizer-se. A sinceridade
chega mais tarde, bem mais tarde, quando a sedução se faz por outros caminhos.
Antes é urgente fascinar: lançar a âncora. E as âncoras raramente são sinceras.
Nunca ninguém que quer amar alguém que não conhece diz «olá, eu sou o Pedro e quero
amar-te». E seria tão mais simples. Mas as pessoas perdem tempo com a sedução
para o amor — talvez porque a sedução para o amor seja uma das mais
encantadoras partes do amor.
Há tantos
casais que se apaixonaram pela sedução e não por quem os seduziu.
Então aproximou-se, quis dizer alguma coisa
mas a voz parou, ela também parou, ficaram alguns segundos (não devem ter sido
muitos mas para ele foi uma vida inteira a olhá-la e a guardá-la para mais
tarde recordar, sabe-se lá se teria oportunidade de a ver de novo) suspensos no
tempo, um no outro, na verdade, até que ela mesmo sem falar disse «quero», ele
sem falar disse «vamos tentar» — e quando as palavras finalmente chegaram só
disseram as trivialidades que sempre se dizem: «boa tarde, não sou de cá e gostaria
de saber onde fica a praça de tal», «boa tarde, a praça de tal fica na rua de
tal junto à loja de tal», «e isso é longe ou posso ir a pé», «é mesmo aqui ao
lado», «que bom», «eu por acaso estou mesmo a caminho dessa zona e posso
acompanhá-lo lá», «isso seria excelente, obrigado», «ora essa, ora essa»,
«Pedro», «Bárbara», e o resto ficará para a história, a deles, claro está, que
esta nossa acabou agora mesmo, peço desculpa, e até à próxima, esperemos que
por dentro de outro amor qualquer.
[Pedro Chagas Freitas], in “Prometo Perder”
quarta-feira, 27 de março de 2013
Farto... [ Farta... ]
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| foto: Christian Coigny |
Estou farto. Farto das mentiras, dos medos, dos terrores. Farto das vontades, das saudades. Estou farto. Farto de calar, de chorar, de ceder. Farto de olhar, de ouvir, de saber. Farto de ser.
Estou farto. Farto de um país parado, de um país anestesiado. Farto dos políticos que mentem, que assustam, que controlam. Estou farto. Farto de um país calado.
Estou farto. Farto de projectos que não andam, farto de projectos que se encolhem, de verdades que se escolhem. Estou farto. Farto das cunhas, dos tachos. Dos senhores que cozinham, dos imperadores que dominam. Farto das estratégias comezinhas, das ambições pequeninas. Estou farto.
E farto das palmadas nas costas, dos yes men que lambem bostas. Farto. Farto. Farto de quem se verga, de quem se entrega, de quem se nega. Estou farto. Da oposição que não se opõe, do poder que só dispõe – farto do presidente, do vereador, do director, do colaborador. Farto do excelentíssimo doutor, do venerável senhor. Farto.
Estou farto. E quero. Quero o país a pensar, a olhar, a falar. Quero a oposição a apontar, a incomodar, a saltar. Quero. Nada de medo, nada de fuga, nada de falso. Quero.
Quero. Ideias, conceitos, futuros. Quero o desempregado ocupado, quero o empreiteiro dominado. Estou farto. E quero. A empresa a trabalhar, o trabalhador a ganhar. Quero. Quero a liberdade apregoada, quero Abril na peugada. Quero.
E sonho. Com a democracia instaurada, com a decisão partilhada, com a verdade sem espada. Quero. E sonho. Sonho com a imprensa que não se vende, com a pena que não se rende, com a censura que não se acende. Quero.
E sonho. Com o jornalista que investiga, com a chantagem que não se obriga, com a morte da intriga. Sonho. E quero. Quero que se interrogue quem manda, que se pergunte o que se ordena, que se questione com o que se acena. Quero.
Porque estou farto. Farto de quem se sente farto.
Porque estou farto. Farto de estar farto.
[Pedro Chagas Freitas],in "Só os Feios é Que São Fiéis"
Estou farto. Farto de um país parado, de um país anestesiado. Farto dos políticos que mentem, que assustam, que controlam. Estou farto. Farto de um país calado.
Estou farto. Farto de projectos que não andam, farto de projectos que se encolhem, de verdades que se escolhem. Estou farto. Farto das cunhas, dos tachos. Dos senhores que cozinham, dos imperadores que dominam. Farto das estratégias comezinhas, das ambições pequeninas. Estou farto.
E farto das palmadas nas costas, dos yes men que lambem bostas. Farto. Farto. Farto de quem se verga, de quem se entrega, de quem se nega. Estou farto. Da oposição que não se opõe, do poder que só dispõe – farto do presidente, do vereador, do director, do colaborador. Farto do excelentíssimo doutor, do venerável senhor. Farto.
Estou farto. E quero. Quero o país a pensar, a olhar, a falar. Quero a oposição a apontar, a incomodar, a saltar. Quero. Nada de medo, nada de fuga, nada de falso. Quero.
Quero. Ideias, conceitos, futuros. Quero o desempregado ocupado, quero o empreiteiro dominado. Estou farto. E quero. A empresa a trabalhar, o trabalhador a ganhar. Quero. Quero a liberdade apregoada, quero Abril na peugada. Quero.
E sonho. Com a democracia instaurada, com a decisão partilhada, com a verdade sem espada. Quero. E sonho. Sonho com a imprensa que não se vende, com a pena que não se rende, com a censura que não se acende. Quero.
E sonho. Com o jornalista que investiga, com a chantagem que não se obriga, com a morte da intriga. Sonho. E quero. Quero que se interrogue quem manda, que se pergunte o que se ordena, que se questione com o que se acena. Quero.
Porque estou farto. Farto de quem se sente farto.
Porque estou farto. Farto de estar farto.
[Pedro Chagas Freitas],in "Só os Feios é Que São Fiéis"
sábado, 3 de dezembro de 2011
CARTA À MULHER QUE VOU LEVAR PARA A CAMA
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| foto: mick mazzei |
«Fornicar é uma ordinarice. É o sexo pelo sexo, o corpo pelo corpo, o suor pelo suor. Sem a magia da comunhão, sem a intensidade emocional da emoção do fundo, da emoção que vem das veias como o grito vem da garganta. Fornicar sabe a carne na carne, a reles pénis em reles vagina. Fornicar é dois corpos que se esfregam. Uma masturbação assistida. Uma partilha insistida.
A mulher que vou levar para a cama – sim, tu – não me vai fornicar. Não vai porque eu não deixo. Lamento. Não deixo. Se fores a mulher que eu vou levar para a cama tens de ser mais do que fornicadora, mais do que especialista em sexo, mais do que a melhor sexoralista do mundo, mais do que a melhor orgasmista do mundo. Se fores a mulher que eu vou levar para a cama vais perceber que fornicar não existe. Fornicar-me não existe. Fornicar, quando fornicar é tudo o que dois corpos que se embraçam fazem, sabe a nada. Continuas sem entender nada?
Mais uma vez: se me queres fornicar, se só me queres fornicar e nada mais do que fornicar-me, quando me levares para cama é certo que não me vais levar para a cama. Fornicar é um amor coxo. Um amor manco. E das duas pernas - ou das duas bolas. Fornicar nem sequer é amor, nem sequer é amável. Fornicar consiste em trocar a mão no sexo pelo sexo que está mais à mão. Desculpa – mas não.
Fazer amor é uma seca. Um tédio. Uma canseira psicológica. É sempre mais do mesmo. Um abraço aqui, um beijo ali, um “amo-te” aqui, um “também te amo” ali. Há carinho, há ternura, há partilha, há cumplicidade. Mas é poucochinho. Coisa pouca quando se pretende o êxtase. Fazer amor é uma seca. Fazer amor, quando tudo que se faz na cama entre dois corpos é fazer amor, é um aborrecimento, uma imensa sensaboria. Se aquilo que me queres fazer, quando me levares para a cama, é amor, daquele que se faz de só carinho, de só ternura, de só cumplicidade de afectos, então garanto-te que não me vais levar para a cama. Não vais. Lamento. Não vais. Fazer amor, para mim, na minha cama e em todas as camas que são minhas (e são minhas, naquele exacto instante que tem de durar para sempre, todas as camas em que eu me deito com outros corpos que se deitam), não existe. Não existe só candura, não existe só o “amo-te tanto” e o “és tão lindo e tão amoroso e tão querido”. Muito menos existe o “és tão fofinho”. Fofinho mas é uma merda. Fofinho é tão pequeninho que até me apetece ir-te ao focinho. Fofinho mas é uma merda. Eu não sou fofinho, não quero ser fofinho e tenho asco de quem é fofinho. Fofinho é um nojinho. Comigo não vais fazer amor. Podes tirar daí o cavalinho da chuva. E podes, já agora, montá-lo também – que daqui não levas nada. Tchauzinho.
Fazer amor é uma treta. Uma engonhice, uma trambiquisse. Fazer amor é uma treta e uma engonhice e uma trambiquisse como fornicar é uma treta, uma engonhice e uma trambiquisse. Fazer amor é uma seca como fornicar é uma seca. Manda fornicar o fazer amor. E manda fornicar tudo o que seja só fornicar. Fornicar por fornicar é simplesmente ficar. E ficar – és tão parvo que ainda nem tinhas olhado bem para a palavra – é não sair do sítio. Estar ali, quieto, a sentir mais do mesmo. E menos do mesmo. À medida que vais fornicando vais-te fornicando. E à medida em que vais fazendo amor vais desfazendo amor. Desfazendo-te – e a quem amas – em amor. Todo o amor se dissolve em esperma. Comigo, anota aí e põe-te a milhas, não vais fornicar. Comigo, anota aí e põe-te a milhas, não vais fazer amor. E agora anota sobretudo o que aí vem, meu amor.
Fornicar amor. É isso, e só isso, que vais fazer comigo quando me levares para a tua e para a nossa cama – e é sempre de dois a cama em que dois se fazem assim: como assim tem de ser. Fornicar amor. Até á última gota fornicar amor. Nem fornicar nem fazer amor – fornicar amor. Fornicar-te como à mais prostituta das prostitutas. E amar-te como à mais única das amadas. Fornicar amor. Chamar-te pêga e dizer-te amo-te, espancar-te o sexo e afagar-te o beijo. Ser o doce e a fera - a treva e o raio. Fornicar amor. E só assim, entre um grito e um afago, fornicar-te com amor: fazer-te amor.»
Texto de Pedro Chagas Freitas
in jornal "Notícias de Guimarães", 07-10-2011
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