O Porto é uma menina a falar-me de outra
idade.
Quando olho para o Porto sinto que já não
sou capaz
de entender a sua voz delicada e, só por
ouvir, sou
um monstro que destrói. Mas os meus dedos
são capazes
de tocar-lhe nos ombros, de afastar-lhe os
cabelos.
Entre mim e o Porto, existem milímetros que
são
muito maiores do que quilómetros, mesmo
quando
os nossos lábios se tocam, sobretudo quando
os nossos
lábios se tocam. De que poderíamos falar,
eu e o Porto,
deitados na cama, a respirar, transpirados
e nus?
Eis uma pergunta que
nunca terá resposta.
[José Luís Peixoto], in "Gaveta de Papéis"
foto do google imagens
foto do google imagens
