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domingo, 4 de outubro de 2009

Toque de Perguntas


Foto: Augusto Peixoto


(...) O outono o que é para mim o outono?
O outono é a suspeita de que tudo acaba
de que a exaltação do verão é uma ilusão (...)


[Ruy Belo], in "TODOS OS POEMAS", volume III- excerto de "Meditação Anciã"

domingo, 14 de setembro de 2008

ºº Homem de Palavra(s) ºº

Homem de Palavra(s)

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Feliz, aquele que administra sabiamente a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará Oh! Como é triste envelhecer à porta entretecer nas mãos um coração tardio Oh como é triste arriscar em humanos regressos o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão ao longo do mar transbordante de nós no demorado adeus da nossa condição É triste no jardim a solidão do sol vê-lo desde o rumor e as casas da cidade até uma vaga promessa de rio e a pequenina vida que se concede às unhas Mais triste é termos de nascer e morrer e haver árvores ao fim da rua É triste ir pela vida como quem regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro É triste no Outono concluir que era o verão a única estação Passou o solitário vento e não o conhecemos e não soubemos ir até ao fundo da verdura como rios que sabem onde encontrar o mar e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver através de palavras de uma água para sempre dita Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã Triste é comprar castanhas depois da tourada entre o fumo e o domingo na tarde de Novembro e ter como futuro o asfalto e muita gente e atrás a vida sem nenhuma infância revendo tudo isto algum tempo depois A tarde morre pelos dias fora É muito triste andar por entre Deus ausente Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente.

[Ruy Belo]

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Conheço as palavras pelo dorso. Outro, no meu lugar, diria que sou um domador de palavras. Mas só eu - eu e os meus irmãos - sei em que medida sou eu que sou domado por elas. A iniciativa pertence-lhes. São elas que conduzem o meu trenó sem chicote, nem rédeas, nem caminho determinado antes da grande aventura. Sim. Conheço as palavras. Tenho um vocabulário próprio. O que sofri, o que vim a saber com muito esforço fez inchar, rolar umas sobre as outras palavras. As palavras são seixos que rolo na boca antes de as soltar. São pesadas e caem. São o contrário dos pássaros, embora pássaro seja uma das minhas palavras. A minha vida passou para o dicionário que sou. A vida não me interessa. Alguém que me procure tem de começar - e de ficar - pelas palavras. Através das várias relações de vizinhança, entre elas estabelecidas no poema, talvez venha a saber alguma coisa. Até não saber nada, como eu não sei.

[Ruy Belo]

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Antigamente escrevia poemas compridos Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema São elas: desalento prostração desolação desânimo E ainda me esquecia de uma: desistência Ocorreu-me antes do fecho do poema e em parte resume o que penso da vida passado o dia oito de cada mês Destas cinco palavras me rodeio e delas vem a música precisa para continuar. Recapitulo: desistência desalento prostração desolação desânimo antigamente quando os deuses eram grandes eu sempre dispunha de muitos versos Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas.

[Ruy Belo]


Fotografias de Mai na hoa

domingo, 24 de agosto de 2008

ºº Nos finais do Verão ºº

Nos finais do Verão

Foto: Katia Chausheva


Quando alguns anos aí por finais de Agosto o sol por momentos como que se vela – e eu me sinto - talvez sem saber porquê - subitamente triste ou não sei indeciso - posso fazer várias coisas. No entanto, quase sempre o que faço é correr completamente todas as persianas de todas as janelas de todas as divisões da casa – meter-me na cama - cobrir-me todo até à cabeça com a roupa e começar a ouvir por exemplo o requiem de Mozart. Talvez quase todo o Verão tenha passado por mim quase sem eu dar verdadeiramente por isso – terei descido meia dúzia de vezes à praia – terei tomado ao todo um banho – terei visto distraidamente uma tarde a areia a cair-me do punho levemente fechado por entre os dedos para a palma aberta da outra mão. O sol terá aplicado diariamente a sua demão de luz a dois lados da minha casa – mais amarelado pela manhã na parede voltada a leste – mais amarelo torrado na parede do lado ocidental pouco antes de passar o testemunho à sombra avassaladora da noite. O lugar exacto do pôr-do-sol ter-se-á desviado insensivelmente no sentido norte-sul – dou por isso exactamente no fim do mês ao levantar os olhos da máquina de escrever e procurar em vão o sol prestes a pôr-se no estreito intervalo de duas casas à beira-mar onde antes o via - e além disso a passagem do tempo será também visível por exemplo na altura da pilha dos jornais acumulados a um canto do quarto - no progressivo desgaste do enorme sabonete que dia a dia utilizei para lavar distraidamente as mãos as diversas vezes que as lavei. Alguma coisa passou para sempre – passou irremediavelmente para sempre alguma coisa que não será principalmente isso mas será também isso – alguns rostos pousados no verão de linhas suaves como certos sulcos na areia – sim, decerto alguns rostos estes dias insistentemente repetidos mas afinal desconhecidos ficarão para sempre nas dobras do verão e mais uma vez na vida eu não saberei que fazer – acreditem no que digo – não saberei verdadeiramente o que fazer. Noutras alturas do ano quando a timidez se apodera de mim ou não consigo olhar alguém nos olhos ou tratar de um assunto prático tomo um whisky – telefono a alguém – leio certo tempo o jornal. Agora nestes finais de Agosto quando o sol por momentos como que hesitou o que fiz foi correr as persianas – rodear-me de uma certa escuridão e deixar correr a fita onde se encontra gravado o requiem de Mozart. Os violinos como que procurarão serrar suavemente as vozes cheias e leves instrumentos de sopro – violinos e vozes – dispor-se-ão aqui e ali por estratos à maneira das nuvens no céu de alguns destes dias passados pela hora do pôr-do-sol lá para os lados do poente sobre as águas mansas do mar. Sentirei talvez a mão de cotão da escuridão pesar-me no peito estendido – apenas existente devido ao ritmo lento da respiração e o vento socorrer-se-á de vez em quando da cumplicidade da música que abranda – que como que poisa - que sim – que está ali exactamente rente à moldura da janela e procura fazer-se pequeno para ver se passa por algum interstício e assinalar a sua presença no quarto por uma ligeira ondulação das cortinas – por um hálito na minha pele que seja bastante para me alterar o ritmo da respiração. Sentir-me-ei levemente inquieto – tenho dois ou três problemas a resolver – estarei triste indeciso inquieto – terá passado para mim de maneira irremediável e não sei porquê mais sensível um tempo de vida. Voltarei a cassette do outro lado, piscarei os olhos no escuro. Tenho a sensação de que me protegem três ou quatro pessoas, de que três ou quatro pessoas contra as quais às vezes me revolto me fazem falta – não descerei à praia – não quero estes dias voltar a descer à praia. Talvez em meados de Setembro se porventura se não alterar muito o ritmo da minha respiração eu abra de novo as janelas – veja o tempo que faz – dê uns passos pequenos na casa e me encaminhe lentamente na direcção do mar. Então sim – então estarei só. Que é feito daqueles rostos de Verão – daquelas silhuetas ao pôr-do-sol interpostas por vezes entre a luz e o livro que lia – a que profundidade se encontram agora determinados passos ainda não há muito indubitavelmente impressos na areia do Verão. Perguntarei na falta de outras pessoas talvez ao mar – esse mar que mora sempre aqui e não vai para longe com o Verão. Ficarei à escuta, procurarei distinguir no marulho do mar qualquer esboço de resposta – olharei os contrastes da luz incidindo na superfície do mar. Sei que é em vão – que tudo será decerto em vão e que mais uma vez assisti sem remédio de braços caídos à implacável destruição do Verão. Que é feito do Verão – que é feito dessa pausada estação onde eu sem saber cavara os alicerces da minha vida – que é feito dos olhos sérios e dignos dessa criança ameaçada pelo fim do Verão – por um tempo que em breve a roubaria ao ruidoso convívio do Verão? Quando eu era pequeno e pressentia que me iam levar para longe do mar despedia-me uma a uma das árvores – das pedras – que nunca mais voltaria a ver mesmo que no ano seguinte as voltasse a ver – dava uns passos a cambalear – pensava que seria isso doer-me a cabeça que nunca me tinha doído. Mas não era por isso – não era por sentir há pouco no pulso o fim acelerado do Verão que eu estava indeciso inquieto triste – ia jurar que não era por nada disso – que não tinha nada a ver com isso. Agora sim – agora estarei inquieto e triste por saber mais profundamente do que uma unha cravada na carne que alguma coisa sem remédio acabou – que certos rostos precisamente esses rostos que amiúde o Verão utilizava para ser leve – fazer parte das minhas coisas – fazer talvez parte de mim – repousam para sempre amortalhadas no Verão. Estarei triste por ver que mais uma vez terei falhado inapelavelmente na vida. Inútil agora fechar as janelas – deitar-me – voltar a ouvir o requiem de Mozart – inútil mesmo estar certo de que fizesse eu o que fizesse – mesmo que o fizesse no devido tempo – tudo seria inútil. Abrirei a janela – fincarei o queixo no peitoril da janela – farei uma última tentativa para procurar saber onde é que se esconde o verão – onde é afinal o sítio sossegado do Verão. Ficarei sem remédio triste à janela do meu quarto de olhos perdidos no mar – perdidos com o Verão.

[Ruy Belo]