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segunda-feira, 9 de março de 2009

visita-me ...



visita-me enquanto eu não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com o teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
vem

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
vem

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
vem

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-se
.
[Al Berto], in "O Medo"

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Zeitgeist



Os meus contemporâneos falam muito e dizem: «Então é assim», com o ar desenvolto de quem se alimenta do som da própria voz, quando começam a explicar longamente as actuais tendências das artes ou das letras ou das sociedades a pouco e pouco iguais umas às outras neste primeiro mundo em que nascemos, agora que o segundo deixou de existir e que o terceiro, mais guerra, menos fome, continua abstracto, em folclore distante.

Parece que está morta a metafísica e que a verdade adormeceu, sonâmbula, nos corredores vazios onde, às escuras, se vão cruzando alguns milhões de frases dos meus contemporâneos. Todavia, falam de tudo com o entusiasmo de quem lança «propostas» decisivas e percorre as «vertentes» de novos caminhos para a humanidade, enquanto saboreiam a cerveja sem álcool, o café sem cafeína e sobretudo o amor sem amor, para conservarem o equilíbrio físico e mental.

Os meus contemporâneos dizem quase sempre que são moralistas, e é por isso que forçam toda a gente, mesmo quem não quer, a ser livre, saudável e feliz: proíbem o tabaco e o açúcar e se por vezes sofrem, tomam comprimidos porque a alegria é uma questão de química e convém tê-la a horas certas, como o prazer vigiado por preservativos e outros sempre obrigatórios cintos de segurança, pra que um dia possam sentir que morrem cheios de saúde.

Quando contemplo os meus contemporâneos entre as conversas trendy e os lugares da moda, «tropeço de ternura», queria ser plo menos tão ingénuo como eles, partilhar cada frémito dos lábios, a labareda vã das gargalhadas pla madrugada fora. No entanto, assedia-me a acédia de ficar assim, mais preguiçoso do que um Oblomov à escala portuguesa – ó doce anestesia a invadir-me o corpo, a libertar-me desse feitiço a que se chama o «espírito do tempo» em que vivemos, sob escombros de um céu desmoronado em mil pequenos cacos ainda luminosos, virtuais estrelas que se apagam e acendem à flor de todos os écrans que os meus contemporâneos ligam e desligam cada dia que passa, nunca se esquecendo de carregar nas teclas necessárias para a operação save e assim alcançarem a eternidade.


[Fernando Pinto do Amaral], in "Poemas" (Edição especial para o Jornal de Letras nº1000)