sábado, 4 de fevereiro de 2017
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
E gostava que soubesses...
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| foto: patrick xiong |
[…] E gostava que soubesses que já gosto muito de ti, embora ainda não tenha
de saber o que é isso de gostar muito de ti. Não faz mal, logo se vê. Não, o
que me assusta mesmo muito, quase terror por vezes, é depois não poder voltar
atrás, qualquer coisa tão simples como quem põe uma fita de cinema a rebobinar.
Quero dizer, depois de começar a gostar de ti como gosto, já não consigo
desfazer isso que se fez, sei lá o quê, o que tu quiseres, isso tudo, o que nos
traz juntos até aqui, se tu quiseres. […]
[Pedro Paixão], in “muito, meu amor”
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
deste não-futuro que a gente vive?
[…] Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim,
deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu
tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas
sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na
cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores.
Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o
corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há
pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma
coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada…
De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que,
provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto
se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar
para os outros. […]
[Al Berto], numa entrevista à revista Ler (1989)
terça-feira, 31 de janeiro de 2017
Retrato Ardente
![]() |
| foto: Andrea Hübner |
Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um
grito de alegria.
Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um
corpo estendido.
Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã
de maio.
Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de
orvalho.
Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado
pelas estrelas.
Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia,
triste, alegre — procuro-te.
[Eugénio de Andrade], in "As Palavras Interditas"
domingo, 29 de janeiro de 2017
FOTOGRAFIA DO PORTO
O Porto é uma menina a falar-me de outra
idade.
Quando olho para o Porto sinto que já não
sou capaz
de entender a sua voz delicada e, só por
ouvir, sou
um monstro que destrói. Mas os meus dedos
são capazes
de tocar-lhe nos ombros, de afastar-lhe os
cabelos.
Entre mim e o Porto, existem milímetros que
são
muito maiores do que quilómetros, mesmo
quando
os nossos lábios se tocam, sobretudo quando
os nossos
lábios se tocam. De que poderíamos falar,
eu e o Porto,
deitados na cama, a respirar, transpirados
e nus?
Eis uma pergunta que
nunca terá resposta.
[José Luís Peixoto], in "Gaveta de Papéis"
foto do google imagens
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