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sábado, 18 de novembro de 2017

O tempo de sedução terminou...

foto______ Ron Terner

.
(...)O tempo de sedução terminou. Terás de me tocar, terás de
trocar o tacto dos olhos pelo tacto dos dedos. Apenas persistirá o
jogo, a cumplicidade, e uma ténue vibração do corpo que se
perdeu contra o meu corpo.(...)

[Al Berto], extraído do livro "Lunário"

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

quando aqui não estás

foto: Φίλιππος
quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer

a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrerem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas

um rosto desenvolvendo-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz
quero morrer
com uma overdose de beleza


e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta o coração
esse
solitário caçador


[Al Berto], in Vigílias

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

deste não-futuro que a gente vive?




[…] Será que nos resta muito depois disto tudo, destes dias assim, deste não-futuro que a gente vive? (...) Bom, tudo seria mais fácil se eu tivesse um curso, um motorista a conduzir o meu carro, e usasse gravatas sempre. Às vezes uso, mas é diferente usar uma gravata no pescoço e usá-la na cabeça. Tudo aconteceu a partir do momento em que eu perdi a noção dos valores. Todos os valores se me gastaram, mesmo à minha frente. O dinheiro gasta-se, o corpo gasta-se. A memória. (...) Não me atrai ser banqueiro, ter dinheiro. Há pessoas diferentes. Atrai-me o outro lado da vida, o outro lado do mar, alguma coisa perfeita, um dia que tenha uma manhã com muito orvalho, restos de geada… De resto, não tenho grandes projectos. Acho que o planeta está perdido e que, provavelmente, a hipótese de António José Saraiva está certa: é melhor que isto se estrague mais um bocadinho, para ver se as pessoas têm mais tempo para olhar para os outros. […]


[Al Berto], numa entrevista à revista Ler (1989)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O rio dissolve a imagem crepuscular da cidade...



"O rio dissolve a imagem crepuscular da cidade...
…Uma luz lívida - como poalha de neve - veste o casario. A noite, com vagar, esconde Lisboa. A velocidade das tarefas quotidianas parou. A cidade parece iluminar-se a partir do seu interior mais secreto, onde lateja um coração muito antigo. Lisboa transforma-se, assim, no lugar privilegiado para a invenção da escrita. Nesse lugar me movimento e me encontro, e nele me perco em travessias, seduções, esquecimentos. Não há tempo. O tempo do mundo parou às portas da noite de Lisboa.E vou de beco em beco, de bar em bar, de aroma em aroma, de olhar em olhar - conheço a cidade como conheço as linhas de minhas mãos.Aqui, ainda é possível inventar uma história e vivê-la. Ou ficar assim, parado, a olhar o rio e fingir que o Tempo e a Europa não existem - e Lisboa, se calhar, também não."

[Al Berto]  in, “O Anjo mudo”


sexta-feira, 4 de março de 2011

longe do olhar dos outros




Tempo branco, tempo de nenhuma paixão.
Desce ao âmago desta cela.
Debruça-te para o interior do meu vazio.
Nenhum rosto, nenhum pensamento, nenhum gesto inútil.
Nenhum desejo — porque o desejo precisa de um rosto.
E no lugar daquele que partiu acende-se a noite. Pressente-se a morte.
Mas no fundo de mim carregas ao ombro uma chapa de aço, em forma de sol apagado.
O teu corpo fundiu no silêncio do meu.
Dormimos na espessura da poeira, e nela suspendemos o tempo.
Abandonamos a alma.
Esquecemo-nos.
Nada sentimos, nenhum acto se realiza.
Nenhuma alegria ou tristeza.
Apenas matéria, matéria deixada à voragem dos escombros e da ferrugem.
Agora podemos tocar, enlear, comprimir ou distender os corpos.
Construir formas com eles e deixá-los, assim, numa melancólica eternidade.
Longe do olhar dos outros, respiramos ao mesmo tempo - como uma só engrenagem, única e bela.
Resquício de memória que se apaga lentamente, sem que ninguém dê por isso.


[Al Berto], in "O Anjo Mudo"

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

vêm sôfregos os peixes da madrugada





vêm sôfregos os peixes da madrugada
beber o marítimo veneno das grandes travessias
trazem nas escamas a primavera sombria do mar
largam minúsculos cristais de areia junto à boca
e partem quando desperto no tecido húmido dos sonhos

vem deitar-te comigo no feno dos romances
para que a manhã não solte o ciúme
e de novo nos obrigue a fugir
vem estender-te onde os dedos são aves sob o peito
esquece os maus momentos a falta de notícias a preguiça
ergue-te e regressa
para olharmos a geada dos astros deslizar nas vidraça
e os pássaros debicarem o outono no sumo das amoras

iremos pelos campos
à procura do silente lume das cassiopeias


[Al Berto], in "O Medo"

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Recado



























foto: Zbyszek Kordys


ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte


vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite


deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me


que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço

[Al Berto], in “Horto de Incêndio”

terça-feira, 3 de agosto de 2010

[…] no centro da cidade, um grito…



foto:Jan Saudek

[…] no centro da cidade, um grito…

[…] no centro da cidade, um grito. Nele morrerei, escrevendo o que a vida me deixar. E sei que cada palavra escrita é um dardo envenenado, tem a dimensão de um túmulo, e todos os seus gestos são uma sinalização em direcção à morte […]. Mas hoje, ainda longe daquele grito, sento-me na fímbria do mar. Medito no meu regresso. Possuo para sempre tudo o que perdi. E uma abelha pousa no azul do lírio, e no cardo que sobreviveu à geada.[…] Bebo, fumo, mantenho-me atento, absorto – aqui sentado, junto à janela fechada. Ouço-te ciciar amote pela primeira vez, e na ténue luminosidade que se recolhe ao horizonte acaba o corpo. Recolho o mel, guardo a alegria, e digo-te baixinho: Apaga as estrelas, vem dormir comigo no esplendor da noite do mundo que nos foge.

[Al Berto], in “O Último Coração do Sonho”

domingo, 4 de outubro de 2009

No Silêncio dos Jardins


Foto: i.anton
.
No Silêncio dos Jardins

Se um dia regressares, a terra estremecerá na memória de tua ausência. E a água formará um vasto oceano no outro lado do teu olhar.
Regressarás, talvez, quando o ar se tornar rubro em redor do meu sono – e o lume das horas, a pouco e pouco, saciar a boca que clama pelo teu nome.
Encontrar-nos-emos nas imagens deste jardim de afectos e de ódios. Porque os jardins são labirínticas arquitecturas mentais, onde podemos resguardar os corpos de qualquer voragem do tempo.
Por isso, enquanto não regressas, construo jardins de areia e cinza, jardins de água e fogo, jardins de répteis e de ervas aromáticas, jardins de minerais e de cassiopeias – mas todos abandono à invasão do tempo e da melancolia.
Mas se um dia regressares, passeia-te por dentro do meu corpo. Descobrirás o segredo deste jardim interior – cuja obscuridade e penumbras guardaram intacto o nocturno coração.


Foto: Ivan Gorcev



[Al Berto], in "Dispersos"

sábado, 1 de agosto de 2009

diário de uma paixão /


diário de uma paixão /

“Procuro teu perfume, teu ombro, tua mão no respirar morno das casas. Revolvo-me no branco dos lençóis, como o mar se resolve contra as paredes, em maré viva. O sopro do teu sono humedece-me o peito. Manhã confusa, nevoenta luz onde se quebra o pesadelo. Procuro-te, peixe alucinante, no fundo lodoso de mim. (…) O ténue tecido das cortinas separa o sonho vivido em ti da cidade há muito acordada. Prolongo esse instante de ilusão (…)“

[Al Berto], excerto de O pranto das mulheres sábias, in “À Procura do Vento Num Jardim d' Agosto”

sexta-feira, 31 de julho de 2009

hoje é dia de coisas simples



hoje é dia de coisas simples
(Ai de mim! Que desgraça!
O creme de terra não voltará a aparecer!)
coisas simples como ir contigo ao restaurante
ler o horóscopo e os pequenos escândalos
folhear revistas pornográficas e
demorarmo-nos dentro da banheira

na aldeia pouco há a fazer
falaremos do tempo com os olhos presos dentro das chávenas
inventaremos palavras cruzadas na areia... jogos
e murmúrios de dedos por baixo da mesa
beberemos café
sorriremos à pessoas e às coisas
caminharemos lado a lado os ombros tocando-se
(se estivesses aqui!)
em silêncio olharíamos a foz do rio
e o brincar agitado do sol nas mãos das crianças descalças
hoje

[Al Berto], Doze Moradas de silêncio, do livro "Salsugem", in O Medo, 4ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2009.

domingo, 17 de maio de 2009

Prefácio para um livro de poemas


Foto: Arno Bani

conheci um homem que possuía uma cabeça de vidro.
víamos - pelo lado menos sombrio do pensamento - todo o sistema planetário.
víamos o tremelicar da luz nas veias e o lodo das emoções na ponta dos dedos. o latejar do tempo na humidade dos lábios.
e a insónia, com seus anéis de luas quebradas e espermas ressequidos. as estrelas mortas das cidades imaginadas.
os ossos tristes das palavras.

a noite cerca a mão inteligente do homem que possui uma cabeça transparente.
em redor dele chove.
podemos adivinhar uma chuva espessa, negra, plúmbea.
depois, o homem abre a mão, uma laranja surge, esvoaça.
as cidades (como em todos os livros que li) ardem. incêndios que destroem o último coração do sonho.
mas aquele que se veste com a pele porosa da sua própria escrita olha, absorto, a laranja.

a queda da laranja provocará o poema?
a laranja voadora é, ou não é, uma laranja imaginada por um louco?
e um louco, saberá o que é uma laranja?
e se a laranja cair? e o poema? e o poema com uma laranja a cair?
e o poema em forma de laranja?
e se eu comer a laranja, estarei a devorar o poema? a ficar louco?
e a palavra laranja existirá sem a laranja?
e a laranja voará sem a palavra laranja?
e se a laranja se iluminar a partir do seu centro, do seu gomo mais secreto, e alguém a esquecer no meio da noite - servirá o brilho da laranja para iluminar as cidades há muito mortas?
e se a laranja se deslocar no espaço - mais depressa que o pensamento, e muito mais devagar que a laranja escrita - criará uma ordem ou um caos?

o homem que possui uma cabeça de vidro habita o lado de fora das muralhas da cidade.
foi escorraçado.
e na desolação das terras, noite dentro, vigia os seus próprios sonhos e pesadelos. os seus próprios gestos - e um rosto suspenso na solidão.

onde mora o homem que ousou escrever com a unha na sua alma, no seu sexo, no seu coração?
e se escreveu laranja na alma, a alma ficará saborosa?
e se escreveu laranja no coração, a paixão impedi-lo-á de morrer?
e se escreveu laranja no sexo, o desejo aumentará?

onde está a vida do homem que escreve, a vida da laranja, a vida do poema - a Vida, sem mais nada - estará aqui?
fora das muralhas da cidade?
no interior do meu corpo? ou muito longe de mim - onde sei que possuo uma outra razão... e me suicido na tentativa de me transformar em poema e poder, enfim, circular livremente.

[Al Berto], in “O Medo” – Livro Décimo Quinto, “Poeira de Lume”

quarta-feira, 11 de março de 2009

E eu direi...


"(...)E eu direi:- Dantes, eras uma visão. Sentia uma luz acender-se na pele e eras tu. Hoje, preparo e bebo venenos para que o brilho daquilo que já não és venha ao de cima, se solte do sangue e estremeça, cintile e não se apague.

Tu:- O medo, o grande medo que se confunde com a serenidade, devora-te. E se nos tocarmos perderemos a inocência; ou, talvez tu morras e eu ressuscite. Mas uma coisa é certa: não nos cruzaremos mais, estamos definitivamente sós. Eu, enterrado. Tu, respiras.

Eu:- Quero morrer perto de ti, de nada me servirá morrer inocente.

Tu:- Aqui, nesta treva, o que é que parou no tempo? As nossas vidas? A paisagem? O mar? Do qual nunca soubemos a idade...

Eu:- Quando sentia o teu corpo contra o meu ouvia, lá fora, a fúria o mar. Era um presságio de felicidade, mesmo sabendo que só o mar de outras terras é belo.

Tu:- Continuas a escrever demais, matas tudo com as palavras. Olha como eu te olho. Olha para mim e cala-te. Devias encher a caneta com tinta envenenada.

Eu:- O último deserto que me resta de ti é a noite da escrita. Nela te mantenho vivo, amante morte. Já não possuo bens e não prevejo herança nenhuma. Vivo para a travessia do corpo que me sepultou na memória... o teu.

Tu:- Aquele que se prepara para morrer tem que povoar a alma com tudo o que vai abandonar. Não chegues aqui de coração vazio. É insuportável estar morto, sem nada que nos habite. A morte não admite distracções; por isso, a maior parte das pessoas não sabe morrer, desfaz-se.

Eu:- Não há vergonha em dizer ou escrever isto: amo-te ainda.(...)”

[Al Berto], in “O Anjo Mudo”

segunda-feira, 9 de março de 2009

visita-me ...



visita-me enquanto eu não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com o teu rosto de Modigliani suicidado

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
vem

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
vem

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
vem

com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-se
.
[Al Berto], in "O Medo"

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

pernoitas em mim


foto: Jan Saudek

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória...amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes


[Al Berto], in "O Medo"

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

vem comigo


Foto: Katarzyna Widmanska

vem comigo
ver as pirâmides fantásticas do vento
no interior luminoso da terra encontrarás
o segredo de quartzo para desvendares o tempo
onde contemplamos a fulva doçura das cerejas

iremos para onde os restos de vida não acordem
a dor da imensa árvore a sombra
dos cabelos carregados de pólenes e de astros
crescemos lado a lado com o dragão
o súbito relâmpago dos frutos amadurecendo
iluminará por um instante as águas do jardim
e o alecrim perfumará os noctívagos passos
há muito prisioneiros no barro
onde o rosto se transforme e morre
e já não nos pertence

vem comigo
praticar essa arte imemorial de quem espera
não se sabe o quê junto à janela
encolho-me
como se fechasse uma gaveta para sempre
caminhasse onde caiu um lenço
mas levanto os olhos
quando o verão entra pelo quarto e devassa
esta humilde existência de papel

vem comigo
as palavras nada podem revelar
esqueci-as quase todas onde vislumbro um fogo
pegando fogo ao corpo mais próximo do meu
.
[Al Berto], in "Uma Existência de Papel"

sábado, 3 de janeiro de 2009

ºº Choveu todo o dia... ºº



Foto: Zhang Jingna

Acordo na desolação da casa desabitada.
Choveu. Choveu todo o dia sobre a cidade.
Digo:
- Esta chuva limpa a morte dos dias.


[Al Berto], in O Anjo Mudo