domingo, 4 de Outubro de 2009

Toque de Perguntas


Foto: Augusto Peixoto


(...) O outono o que é para mim o outono?
O outono é a suspeita de que tudo acaba
de que a exaltação do verão é uma ilusão (...)


[Ruy Belo], in "TODOS OS POEMAS", volume III- excerto de "Meditação Anciã"

No Silêncio dos Jardins


Foto: i.anton
.
No Silêncio dos Jardins

Se um dia regressares, a terra estremecerá na memória
de tua ausência. E a água formará um vasto oceano no outro
lado do teu olhar.
Regressarás, talvez, quando o ar se tornar rubro em redor
do meu sono – e o lume das horas, a pouco e pouco,
saciar a boca que clama pelo teu nome.
Encontrar-nos-emos nas imagens deste jardim de
afectos e de ódios. Porque os jardins são labirínticas arquitecturas
mentais, onde podemos rasgar os corpos de
qualquer voragem do tempo.
Por isso, enquanto não regressas, construo jardins deareia e cinza, jardins de
água e fogo, jardins de répteis e de
ervas aromáticas, jardins de minerais e de cassiopeias –
mas todos abandono à invasão do tempo e da melancolia.
Mas se um dia regressares, passeia-te por dentro do
meu corpo. Descobrirás o segredo deste jardim interior –
cuja obscuridade e penumbras guardaram intacto o
nocturno coração.


Foto: Ivan Gorcev



[Al Berto], in "Dispersos"

domingo, 13 de Setembro de 2009

Amigos meus

Ah, meus amigos, não vos deixeis morrer assim... O ano que passou levou tantos de vós e agora os que restam se puseram mais tristes; deixam-se, por vezes, pensativos, os olhos perdidos em ontem, lembrando os ingratos, os ecos de sua passagem lembrando que irão morrer também e cometer a mesma ingratidão.
.
Ide ver vossos clínicos, vossos analistas, vossos macumbeiros, e tomai sol, tomai vento, tomai tento, amigos meus! – porque a Velha andou solta este último Bissexto e daqui a quatro anos sobrevirá mais um no Tempo e alguns dentre vós – eu próprio, quem sabe? – de tanto pensar na Última Viagem já estarão preparando os biscoitos para ela.
.
Eu me havia prometido não entrar este ano em curso – quando se comemora o 19640 aniversário de um judeu que acreditava na Igualdade e na justiça – de humor macabro ou ânimo pessimista. Anda tão coriácea esta República, tão difícil a vida, tão caros os gêneros, tão barato o amor que – pombas! – não há de ser a mim que hão de chamar ave de agouro. Eu creio, malgrado tudo, na vida generosa que está por aí; creio no amor e na amizade; nas mulheres em geral e na minha em particular; nas árvores ao sol e no canto da juriti; no uísque legítimo e na eficácia da aspirina contra os resfriados comuns. Sou um crente – e por que não o ser? A fé desentope as artérias; a descrença é que dá câncer.
.
Pelo bem que me quereis, amigos meus, não vos deixeis morrer. Comprai vossas varas, vossos anzóis, vossos molinetes, e andai à Barra em vossos fuscas a pescar, a pescar, amigos meus! – que se for para engodar a isca da morte, eu vos perdoarei de estardes matando peixinhos que não vos fizeram mal algum. Muni-vos também de bons cajados e perlustrai montanhas, parando para observar os gordos besouros a sugar o mel das flores inocentes, que desmaiam de prazer e logo renascem mais vivas, relubrificadas pela seiva da terra. Parai diante dos Véus-de-Noiva que se despencam virginais, dos altos rios, e ride ao vos sentirdes borrifados pelas brancas águas iluminadas pelo sol da serra. Respirai fundo, três vezes o cheiro dos eucaliptos, a exsudar saúde, e depois ponde-vos a andar, para frente e para cima, até vos sentirdes levemente taquicárdicos. Tomai então uma ducha fria e almoçai boa comida roceira, bem calçada por pirão de milho. O milho era o sustentáculo das civilizações índias do Pacífico, e possuía status divino, não vos esqueçais! Não abuseis da carne de porco, nem dos ovos, nem das frituras, nem das massas. Mantende, se tiverdes mais de cinqüenta anos, uma dieta relativa durante a semana a fim de que vos possais esbaldar nos domingos com aveludadas e opulentas feijoadas e moquecas, rabadas, cozidos, peixadas à moda, vatapás e quantos. Fazei de seis em seis meses um check-up para ver como andam vossas artérias, vosso coração, vosso fígado.
.
E amai, amigos meus! Amai em tempo integral, nunca sacrificando ao exercício de outros deveres, este, sagrado, do amor. Amai e bebei uísque. Não digo que bebais em quantidades federais, mas quatro, cinco uísques por dia nunca fizeram mal a ninguém. Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.
.
Mas sobretudo não morrais, amigos meus!

1965


[Vinicius de Moraes], in Poesia Completa e Prosa: "Para uma menina com uma flor"

Fotos: Madz Rehorek

domingo, 16 de Agosto de 2009

Aos Libertinos


Voluptuosos de todas as idades e de todos os sexos é a vós apenas que ofereço esta obra: nutri-vos de seus princípios, eles beneficiam vossas paixões, e essas paixões, com as quais os frios e insípidos moralistas vos assustam, são apenas os meios que a natureza emprega para que o homem alcance as intenções que ela tem sobre ele; atentai apenas a essas paixões deliciosas; seu órgão é o único que vos deve conduzir à felicidade.

Mulheres lúbricas, que a voluptuosa Saint-Ange seja vosso modelo; desprezai, a exemplo dela, tudo o que contraria as leis divinas do prazer que a acorrentaram durante toda a vida.

Donzelas cerceadas durante um tempo demasiado longo nos laços absurdos e perigosos de uma virtude fantástica e de uma religião repugnante, imitai a ardente Eugénia; destruí, pisai, com a mesma rapidez que ela, em todos os preceitos ridículos inculcados por pais imbecis.

E vós, amáveis debochados, vós que, desde a juventude, não tendes outros freios senão vossos desejos nem outras leis senão vossos caprichos, que o cínico Dolmancé vos sirva de exemplo; ide tão longe quanto ele se, como ele, quereis percorrer todos as estradas floridas que a lubricidade vos prepara; convencei-vos, imitando-o, de que só alargando a esfera de seus gostos e suas fantasias, e, apenas sacrificando tudo à volúpia é que o infeliz indivíduo conhecido como homem e lançado a contragosto nesse triste universo, pode conseguir entremear de rosas os espinhos da vida.

[Marquês de Sade], in “A Filosofia na Alcova”

sábado, 1 de Agosto de 2009

diário de uma paixão /


diário de uma paixão /

“Procuro teu perfume, teu ombro, tua mão no respirar morno das casas. Revolvo-me no branco dos lençóis, como o mar se resolve contra as paredes, em maré viva. O sopro do teu sono humedece-me o peito. Manhã confusa, nevoenta luz onde se quebra o pesadelo. Procuro-te, peixe alucinante, no fundo lodoso de mim. (…) O ténue tecido das cortinas separa o sonho vivido em ti da cidade há muito acordada. Prolongo esse instante de ilusão (…)“

[Al Berto], excerto de O pranto das mulheres sábias, in “À Procura do Vento Num Jardim d' Agosto”

sexta-feira, 31 de Julho de 2009

hoje é dia de coisas simples



hoje é dia de coisas simples
(Ai de mim! Que desgraça!
O creme de terra não voltará a aparecer!)
coisas simples como ir contigo ao restaurante
ler o horóscopo e os pequenos escândalos
folhear revistas pornográficas e
demorarmo-nos dentro da banheira

na aldeia pouco há a fazer
falaremos do tempo com os olhos presos dentro das chávenas
inventaremos palavras cruzadas na areia... jogos
e murmúrios de dedos por baixo da mesa
beberemos café
sorriremos à pessoas e às coisas
caminharemos lado a lado os ombros tocando-se
(se estivesses aqui!)
em silêncio olharíamos a foz do rio
e o brincar agitado do sol nas mãos das crianças descalças
hoje

[Al Berto], Doze Moradas de silêncio, do livro "Salsugem", in O Medo, 4ª ed., Assírio & Alvim, Lisboa, 2009.

sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Confissão


Queres saber onde estou? Estou no lugar onde qualquer pessoa que foi amada se encontra. No mexer, no sussurrar, na entrega, no incansável prazer, na alma a dois. Lindo é o meu amor nómada que não pára de fugir de paisagem em paisagem e me vem visitar sempre que o não espero. Para sentir bater mais forte o meu coração que ele envolve como uma serpente. E o meu sexo nos seus dentes.
.


Vem ter comigo que eu não espero mais.




[Pedro Paixão], in "Nos Teus Braços Morreríamos", excerto de do conto "Confissão"

quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Os Perigos do Verão


Foto: James Houston

Era o verão, o seu desassossego.
Era o desejo,
o desejo rompendo da sombra
sem caminho, e doía.
Era o ardor, o mais diáfano
irmão da melancolia.
Era o amor, o espanto
do amor, desarmado,
sem abrigo.
Era o deserto, o deserto à porta;
e fervia.

[Eugénio de Andrade], in "Ofício da Paciência"

sexta-feira, 26 de Junho de 2009

pouso no silêncio...

Hoje comprei na Wook o livro "estou escondido na cor amarga do fim da tarde" de valter hugo mãe. À vinda para casa, foi este o primeiro poema que li e que achei lindo .


Vários vídeos de Michael Jackson na MTV - Clique aqui


pouso no silêncio...





pouso no silêncio como um
alvo em busca do predador, os
ouvidos reversos já calados, a
noite mal fechada por onde
entram os poetas intrusos, bichos
com luz própria, dando à voz
que deixei de mostrar uma ausência
acentuada, uma
caixa da boca na forma de
caixão. poetas de medos
chantageando o livro, dando-lhe
páginas sem a minha permissão.
assim me quedo por instantes,
ocupando-me só com reflexos agudos do
luar no rio



[valter hugo mãe]

in "estou escondido na cor amarga do fim da tarde"

domingo, 31 de Maio de 2009

To be or not to be

Foto: Howard Schatz
.
Minha querida, se soubesses! Lembras-te da canção do Zé Mário? «O que eu andei p’ra aqui chegar…». Foi quase isso. Um caminho longo e penoso, mas fi-lo parado. Três anos vivendo como um autómato cinzento – o que nem é difícil, tantos o fazem… –, apenas a memória a cores fortes. Porque à noite, em casa, no escuro, punha os auscultadores e pintava-nos obsessivamente com a música por moldura. E os quadros amontoavam-se na minha cabeça, tão límpidos como o génio agarotado do teu querido Mozart.
Que ouvias em altos berros! Ainda tinha o chaveco e ao fim da tarde, quando te ia buscar, das janelas escancaradas jorrava a Flauta Mágica, inundando a floreira e as plantas, sedentas e cultas. Tocava à campainha, a voz no intercomunicador, riso escondido, «desço ou ainda sobes?». O ainda era tão prometedor…; «subo». O olhar maroto, «estás com muita fome?». Às vezes. A de ti, pelo contrário, gemia sempre alto nas entranhas, à medida que o crepúsculo da sala afagava esse andar de mulher madura, cruel de tão lenta, sabendo-me na sombra maravilhada dos seus passos. O rodopio gaiato, que só não fazia adejar a saia porque ela se agarrava, teimosa, às ancas. Enquanto, mais livres, duas coxas de luto alegre lhe fugiam, elegantes, rumo ao chão. «Vai daí…?». O sorriso, de tão aberto, substituía convite de mãos ou boca. E tu à espera, maliciosa; eu a custo segurando as rédeas do desejo, toda a pressa me tornaria culpado e vítima de crime aceitável nos garotos mas assassino em quem já desce a outra encosta dos anos. Seria como ter pressa de chegar ao último verso de um poema... A cabeça inclinada para trás, o cabelo em liberdade pelo chão, o pescoço longo, arqueado por solidariedade com os rins e à mercê da minha língua, escondendo gemidos que acabavam por se escapar, para meu alívio e orgulho infantis. Botão a botão, até os dedos se perderem por montes e vales, os teus por perto, às vezes ensinando-lhes o caminho, crispados ao anúncio da carícia desejada; e partindo, ligeiros, a libertar-me também de prisões o corpo, que se juntava à nudez completa e agradecida que vestia a alma. O requebro da cintura e a saia, como por milagre, na alcatifa, entre nós e a lareira, apagada por inveja do fogo a seu lado. Meias, rendas, os sapatos altos com tiras que suportam os pés das mulheres sem os vestir, tudo se juntava à saia com lentidão suave, sem momentos penosos de atrapalhação canhestra; como se já tivéssemos nascido entrelaçados. As palavras tontas. A que só respondias, com alegre vergonha, quando afundavas em mim lábios e dentes. Uma vez, de tão juntos no acorde, sussurrámos «fala comigo» ao mesmo tempo e ainda sorrimos, antes de inventar diálogo obsceno noutras circunstâncias, mas sagrado quando o desejo esfarrapa as regras que ordenam os dias tristes e as cabeças normalizadas. A explosão que orlava as testas de suor e fazia apetecer o colo do outro. (Bom sinal!, a meiguice nem sempre acompanha o espasmo.) A tua mão distraída, passeando pelo meu peito, cheio de um estranho cansaço, juvenil e impaciente, «estou de rastos e quero mais». Será isso o amor?
.
O silêncio. Até me beijares ao de leve e te escapulires por momentos, para reapareceres tão fresca como antes, «cavalheiro, já abusou de mim, agora leve-me a jantar». A carripana transfigurada pela conversa prazenteira, a tua ópera preferida no compacto, a eterna hesitação sobre restaurante primeiro e ementa depois. O olhar carinhoso dos empregados das minhas tascas de sempre, teus fãs incondicionais, prontos a franzir o cenho quando me viam chegar sozinho, «a senhora não vem?». A rua e as noites húmidas do Porto, essa garrida forma de me enfiares o braço que trazia recordações de férias, quando atalhavas os meus protestos preguiçosos e exigias que te mostrasse o mundo, «só desisti das minhas queridas praias alentejanas porque prometeste fazer de mim uma rapariga culta». O desvio, no caminho do regresso, para uma visita a amigos com beijo prometido há meses. Enterrado no sofá, bebia a golos avarentos o fascínio pelo teu modo preguiçoso de cruzar as pernas, acender um cigarro, sorrir. Com os olhos procuravas os meus, através de sala e conversas, carinho mudo. Quando, a alguma anedota minha mais desbragada, alguém risonhamente se te queixava, fazias um gesto de impotência, «os homens são todos assim», mas perdoavas ao teu. Será isso o amor?
.
Chegado a tua casa, simplesmente ficar. Ver-te o gozo em último cigarro e meia dúzia de bolachas, pecavas com a consciência tranquila de quem decidiu viver a vida e não prolongá-la a todo o custo. O quarto impecável, envergonhando o meu, órfão no outro extremo da cidade. A figura esguia recortada na porta, «fecho a janela?». Ainda e sempre os códigos, o «não» anunciava o triunfo do desejo sobre as horas, eu pasmava com o adolescente ressuscitado dentro de mim. Um sexo, como direi?, gentil, mas não menos intenso. A conversa adormecendo e nós com ela; abraçados. Sempre fui o terror dos lençóis e a delícia dos psicanalistas, sonhos terríficos abanando-me, e no entanto dava comigo, manhã cedo, enroscado à tua volta, na mesma posição em que segredara «dorme bem». E sobretudo sem o movimento de repulsa que os corpos errados despertam nos acordares surpresos que se seguem a noites demasiado optimistas, às vezes queremos dormir com uma pessoa, mas não partilhar o sono com ela. Passara por isso antes, é sinistro ter mulher adormecida junto a nós e pensar «o que estou aqui a fazer?». O pequeno-almoço que me ensinaste a apreciar. Sumo de laranja, compota, o pão favorito que guardavas no congelador, e eu sem medo de fazer batota, inventando-te defeitos que me libertassem. Pelo contrário!, seguindo a fronteira entre o roupão e o teu peito com um frémito aprovador dentro do meu, quando dizia «até logo» era exactamente isso que pensava, «volto logo e vai ser bom; tudo». Será isso o amor?
.
Talvez, quem sabe? Por que não te perguntei? Decidias o rótulo, se dissesses amor ficava assim decretado, as mulheres sabem mais dessas coisas. Teria feito diferença? Estaríamos ainda juntos? Bem vês, quando pediste para discutir o futuro, desejei muito que estivesse cheio daquele presente. Tu com outros planos, expuseste-os com tremenda clareza, antes de deixares cair um «se verdadeiramente gostas de mim…» que soava a ameaça implorada. Vivermos juntos… Será isso o amor ou uma forma de amor que ponha outras em perigo?
.
Eu não tinha a certeza, mas como advogado já vira muita coisa. As pessoas esbarram umas nas outras constantemente e rilham, rilham, os amantes transformam-se em animais domésticos, vivendo ao ritmo das telenovelas e do futebol. Um dia a saudade do que foram pousa num colega do trabalho que sente o mesmo e acabam no meu escritório, convencidos de que a felicidade os espera no próximo «sim», laico ou profano; acontece tudo outra vez. Ou não!, verdade é que eu tinha um medo enorme de encurtar as pequenas distâncias que me faziam correr para ti, sou um bicho instável, receio tanto o abandono como o sufoco. Bolinei com palavras sinuosas. Tu em silêncio dorido, eu sentindo-o como acusador. Fechados, cada um em sua concha, paranóicos e mal amados, dissemos adeus com um pretexto ignóbil que não recordo, mas foi o silêncio ressentido a liquidar-nos. A solidão. Outras mulheres, ignorantes do pano de fundo sobre o qual se moviam; inocentes. O sexo mecânico. A culpa por nem culpa sentir, apenas uma saudade imensa da tua silhueta na porta, «fecho a janela?». Será isso o amor?
.
Eis-nos aqui. Domingo de sol, passeio junto ao mar, esses olhos azuis que o desejo nublava fitam-me transparentes, agressivos de tão risonhos, «como estás?». Como estou? E tu que achas, vendo-te assim acompanhada? Ele tem bom aspecto, sorriso franco, nada indica ciúme de paixão mal resolvida da tua parte, sente-se seguro. Esqueceste-me. Pior!, já és minha amiga. Pronto, querida, vou ser politicamente correcto, «bem». O tempo, o amigo comum que encontraste e me acha cansado, a etiqueta, «este é o…». Que interessa o nome?, é o teu homem, «muito prazer». Ele sorri, sabe que não sinto a frase, mas compreende, afinal sou o tipo que ficou sem a mulher que ele não dispensa, «muito prazer». Um silêncio constrangido entre os dois que resolves com à-vontade, «foi bom ver-te». Era necessário humilhar-me tanto? Uma vontade imensa de te abanar – «sou eu, lembras-te?, tinhas a certeza que era o amor da tua vida…» -, acorda!, ainda podemos… Os dois afastando-se, o braço dele sobre os teus ombros, o segredo ao ouvido e esse cabelo, onde me perdia, volteando ao ritmo da gargalhada. Serias incapaz da chacota a meu respeito, é outra a razão, simples e infernal – estás feliz. E uma parte de mim, ainda tímida, quase clandestina, deixa cair os braços. Reconhece derrota e culpa, fica grata pelo que vivemos e murmura um «boa sorte» que todo o resto do que sou fita horrorizado.
Será isto, finalmente, o amor?

.
[Júlio Machado Vaz], in “Estes Difíceis Amores”

sexta-feira, 29 de Maio de 2009

A Casa dos Beijos

“Le Baiser de l'Hotel de Ville”, Paris, 1950, Robert Doisneau

Iam os dois pela rua, de mãos dadas. Dir-se-ia que não pisavam o chão. Dir-se-ia que deslizavam, que vogavam, que voavam. A felicidade estava-lhes cunhada nos rostos; e também nos gestos, nos sorrisos, no olhar. Iam de mãos dadas pela rua e iam muito felizes.

Ela tinha os cabelos longos e soltos, o tronco alto. Os seios puxados para a frente, as pernas esbeltas e livres, saias curtas. Ele era um pouco mais alto, um pouco apenas, camisa aberta, calças de ganga, uma pequena mala, daquelas malas dos antigos guarda-freios da Carris, a tiracolo. Isso: a mala estava a tiracolo, e eles iam muito felizes, os dois, de mãos dadas.

Nem sequer reparavam que muitas pessoas os observavam. Algumas pessoas com a conivência de um sorriso. Outras pessoas com um ressaibo de inveja, no olhar de esguelha. Pararam um pouco em frente à Pastelaria Suíça, no Rossio, ele disse qualquer coisa a ela, ela encolheu os ombros. Não deixavam de sorrir enquanto conversavam. Depois entraram e beberam café.

A esplanada da Suíça estava cheia de sol e de estrangeiros. Um vendedor de lotaria ofereceu jogo. Um rapaz sujo pediu algum dinheiro. Dois homens encontraram-se e abraçaram-se com efusão. Uma mulher apressada deu um encontrão num cego. Um cigano tentava vender relógios. Um polícia contemplava as coisas com evidente indiferença.

O rapaz e a rapariga decidiram, depois de tomar café, passear pelo Rossio. Estavam muito felizes. E é bom que se repita isto, porque as pessoas, habitualmente, andam para aí cheias de infelicidade, ao menos que haja alguém feliz, mesmo que seja uma ou duas pessoas.

Passeavam pelo Rossio e, de vez em quando, davam beijos, sempre sorrindo um para o outro, como se estivessem a sorrir para todo o mundo, e todo o mundo experimentava uma grande sensação de espanto e de júbilo. Paravam junto às montras do Rossio, olhavam, claro, mas não fixavam nada do que nas montras se expunha, só sabiam um do outro, só estavam ali juntos para apenas estar um com o outro, juntos e assim mesmo: de mãos dadas e aos beijos.

Foi numa dessas ocasiões. Beijavam-se tão felizes, tão um do outro, que essa felicidade molestou uma senhora obesa e flácida. A senhora obesa e flácida estacou, indignada, a fuzilá-los com as balas do ódio. E gritou:

— Não podiam fazer isso em casa?

A rapariga dos longos cabelos e seios puxados para a frente deixou o beijo a meio. O rapaz experimentou uma estranha sensação de pasmo. Olharam-se. E foi então que a rapariga respondeu, indicando tudo em derredor:

— Esta é a nossa casa!

Nesse instante trémulo, o mundo feliz, começou a aplaudir.


[Baptista-Bastos], in “Lisboa Contada pelos Dedos”


segunda-feira, 25 de Maio de 2009

Inveja


A inveja é um acto solidário. Em grupo, é já ódio. Porque a inveja é um ódio que não ousa. A palavra latina invidia dá logo para os dois lados. Os romanos eram uns tipos práticos. Agora: o contrário de ódio é o amor. E o de inveja, deve ser o de admiração. Mas a admiração pode ser uma forma de encorajar a inveja, um modo de a recalcar. Ou seja, um modo de se passar para o lado de quem se inveja e de se beneficiar também da admiração que se lhe tem.

[Vergílio Ferreira], in “pensar”

domingo, 24 de Maio de 2009

Arte Poética


Foto: Marta Grzesiak

o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,o poema
é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é uma palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.


[José Luís Peixoto], in “A Criança em Ruínas”
 

..Toque d’Alma .. © 2008. Chaotic Soul :: Converted by Randomness