segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Carta de Henry Miller a Anaïs Nin

Henry Miller & Anaïs Nin




Tudo o que posso dizer é que estou louco por ti. Tentei escrever uma carta e não consegui. Estou constantemente a escrever-te... Na minha cabeça, e os dias passam, e eu imagino o que pensarás. Espero impacientemente por te ver. Falta tanto para terça-feira! E não só terça-feira... Imagino quando poderás ficar uma noite... Quando te poderei ter durante mais tempo... Atormenta-me ver-te só por algumas horas e, depois, ter de abdicar de ti. Quando te vejo, tudo o que queria dizer desaparece... O tempo é tão precioso e as palavras supérfluas... Mas fazes-me tão feliz... porque eu consigo falar contigo. Adoro o teu brilhantismo, as tuas preparações para o voo, as tuas pernas como um torno, o calor no meio das tuas pernas. Sim, Anais, quero desmascarar-te. Sou demasiado galante contigo. Quero olhar para ti longa e ardentemente, pegar no teu vestido, acariciar-te, examinar-te. Sabes que tenho olhado escassamente para ti? Ainda há demasiado sagrado agarrado a ti.

A tua carta... Ah, estas moscas! Fazes-me sorrir. E fazes-me adorar-te também. É verdade, não te dou o devido valor. É verdade. Mas eu nunca disse que não me dás o devido valor. Acho que deve haver um erro no teu inglês. Isso seria demasiado egoísta para eu dizer.
Anais, não sei como expressar-te o que sinto. Vivo numa expectação constante. Tu chegas e o tempo escoa-se como num sonho. É só quando partes que eu entendo completamente a tua presença. E, então, é tarde de mais. Atordoas-me.

Tento imaginar a tua vida em Louveciennes, mas não consigo. Walter Pach? Um sonho bêbedo... E além disso, não gosto dele; o porquê não sei dizer. O teu livro? Também parece irreal. Só quando chegas e olho para ti é que o quadro fica mais claro. Mas partes tão rapidamente... Não sei o que pensar. Sim, vejo claramente a lenda de Pushkin. Vejo-te na minha mente sentada nesse trono, com jóias à volta do pescoço, sandálias, grandes anéis, unhas pintadas, estranha voz espanhola, a viver uma espécie de mentira que não é exactamente uma mentira mas um conto de fadas.

Vesti esta noite as minhas calças de bombazina e reparei que estavam manchadas. Mas juro pela minha vida que não consigo associar a mancha à princesa em Louveciennes que priva com guitarristas, poetas, tenores e críticos. Não me esforcei muito para tirar a mancha. Vi-te entrar na lavandaria e encostar a tua cabeça no meu ombro. Não consigo ver-te a escrever «An Unprofessional Study».

Isto está um bocadinho bêbedo, Anais. Estou a dizer para mim «aqui está a primeira mulher com quem posso ser absolutamente sincero». Lembro-me de dizeres: «Tu podias enganar-me. Eu não o saberia». Quando passeio pelos «boulevards» e penso nisso... Não posso enganar-te... E no entanto gostaria de fazê-lo. Quero dizer que nunca posso ser absolutamente leal... Não está em mim. Adoro mulheres, ou a vida, demasiado... Não sei de que gosto mais. Mas ri, Anais, adoro ouvir-te rir. És a única mulher que tem tido um sentido de alegria, uma sábia tolerância... Já não mais pareces querer fazer com que eu te traia. Amo-te por isso. E por que fazes isso? Amor? Oh, é maravilhoso amar e ser livre ao mesmo tempo.

Não sei o que esperar de ti, mas é algo parecido com um milagre. Vou exigir tudo de ti... Mesmo o impossível, porque tu o encorajas. És realmente forte. Até gosto da tua falsidade, da tua traição. Parece-me aristocrática. (Será que "aristocrática" soa mal na minha boca?)

Sim, Anais, estava a pensar em como posso trair-te, mas não consigo. Quero-te. Quero despir-te, vulgarizar-te um pouco... Ah, não sei o que digo. Estou um bocado bêbedo porque tu não estás aqui. Gostaria de bater palmas e... «voilà»: Anais! Quero ter-te, usar-te. Quero fazer amor contigo, ensinar-te coisas. Não, não te dou o devido valor... Deus queira que não! Talvez até queira humilhar-te um pouco... Porquê, porquê? Por que é que não me ajoelho e te adoro? Não consigo. Amo-te risonhamente.

Gostas disso?
Querida Anais, sou tantas coisas. Tu só vês as coisas boas agora... Ou, pelo menos, levaste-me a pensar isso. Quero-te pelo menos durante um dia inteiro. Quero ir a sítios contigo... Possuir-te. Não sabes o quão insaciável sou. Ou o quão tortuoso. Ou o quão egoísta!

Tenho-me portado bem contigo. Mas aviso-te de que não sou um anjo. Penso principalmente que estou um pouco bêbedo. Amo-te. Vou para a cama agora... É demasiado doloroso permanecer acordado. Amo-te. Sou insaciável. Vou pedir-te para fazeres o impossível. O quê, não sei. Provavelmente dir-me-ás. És mais rápida do que eu. Adoro a tua *, Anais... Põe-me louco. E o modo como dizes o meu nome! Deus, é irreal. Ouve, estou muito bêbedo. Dói-me estar aqui sozinho. Preciso de ti. Posso dizer-te qualquer coisa? Posso, não posso?
Vem depressa então, e faz amor comigo. Explode comigo. Enrola as tuas pernas à minha volta. Aquece-me.




[Henry Miller], in “Carta de Henry Miller a Anaïs Nin ”, 1932

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Anaïs Nin

© Marlo Broekmans


"Um homem jamais pode entender o tipo de solidão que uma mulher experimenta. Um homem se deita sobre o útero da mulher apenas para se fortalecer, ele se nutre desta fusão, se ergue e vai ao mundo, a seu trabalho, a sua batalha, sua arte. Ele não é solitário. Ele é ocupado. A memória de nadar no líquido amniótico lhe dá energia, completude. A mulher pode ser ocupada também, mas ela se sente vazia. Sensualidade para ela não é apenas uma onda de prazer em que ela se banhou, uma carga elétrica de prazer no contato com outra. Quando o homem se deita sobre o útero dela, ela é preenchida, cada ato de amor, ter o homem dentro dela, um ato de nascer e renascer, carregar uma criança e carregar um homem. Toda vez que o homem deita em seu útero se renova no desejo de agir, de ser. Mas para uma mulher, o climax não é o nascimento, mas o momento em que o homem descansa dentro dela".
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Angela Anaïs Juana Antolina Rosa Edelmira Nin y Culmell
[Anaïs Nin]

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Era assim:

foto: ilona shevchishina
 
 

era assim:
                 
                  queres?
                  queres algo?
                  queres desejar?
                  desejas querer?
                  desejas-me?
                  desejas querer-me?
                  queres desejar-me?
                  queres querer-me?
                  queres que te deseje?
                  desejas que te queira?
                  queres que te queira?

                                      quanto me queres?
                                      quanto me desejas?


                   ah quanto te quero
                         quando te quero
                         quando me queres...



[Ana Hatherly], in "Um calculador de improbabilidades",2001

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

ANJOS DE TERRA - António Ramos Rosa

Desconheço a autoria da fotografia
ANJOS DE TERRA
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Anjos, Existem anjos? Volúveis seres
que são um instante de voluptuosa brisa
em que o tempo é a forma do desejo
e do sono das folhas e das águas.
Anjos, sim, de terra, que segredam
a argila dos nomes, o movimento azul
do ar. Na sua companhia eu sou o vento
e o meu hálito confunde-se com as suas vozes.
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[António Ramos Rosa] In, “O NÃO E O SIM” (1990)

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ANTÓNIO RAMOS ROSA(Faro, 17-10-1924 / Lisboa, 23-09-2013)

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

CHAMAS MALDITAS


Bombeiro Português-foto Reuters

Bombeiro Português- foto Reuters
CHAMAS MALDITAS

Lágrimas que queimam, gizadas em forma de chama, punhal que me penetra o peito, choro, choro muito, eternamente. Meu querido filho, que tanto amavas a vida, tu, vida da minha vida que o maldito fogo levou, porque partiste!? Tanto te avisei mas nunca me ouviste, de sorriso largo insistias em ser aquele menino guerreiro, com coração de anjo… Persistias que a tua missão era ajudar a salvar os outros, o planeta, a vida. Nunca dizias que não, dia e noite, voluntariamente disponível para salvar, o que quer que fosse, a enfrentar a morte. Um dia o nosso amigo Raul fez-te um convite para ires com ele para a Suíça, pois dizia-me: “o seu Gabriel tem dotes que qualquer empresa pagaria bem e em vez de continuar por aqui, pelo amor à terra e aos outros, deveria era emigrar. Com um euro e meio à hora ninguém vive!”, dizia-me ele com voz de amigo. Mas o teu sonho de seres bombeiro voluntário concretizou-se, eu sei, e nada te tirava daqui, da tua terra, da tua família. Sei que o fogo não te consumiu a alma, grandiosa, apenas que destruiu o corpo, sei que lutaste até ao teu último sopro para combater as malditas chamas e impedir que consumissem mais um metro de terra, sei que enfrentaste o inferno de sorriso na alma, e isso consola-me, sinceramente, pois só eu e o teu pai sabemos o que significava para ti ser um verdadeiro Cavaleiro da Paz, sei bem a serenidade que tal te oferecia, sei bem que era esta missão que te movia. Mas é duro meu querido filho, tão duro viver neste fosso que a tua ausência provoca. Não sei se aguento muito mais, não sei. O teu pai, com 58 anos, está neste momento num incêndio, na Serra do Monte a tentar vencer um fogo que lavra há três dias. Alistou-se como voluntário em tua homenagem e diz que se morrer como tu, morre feliz. 

Texto de Paulo Costa 

quarta-feira, 27 de março de 2013

Farto... [ Farta... ]

foto: Christian Coigny


Estou farto. Farto das mentiras, dos medos, dos terrores. Farto das vontades, das saudades. Estou farto. Farto de calar, de chorar, de ceder. Farto de olhar, de ouvir, de saber. Farto de ser.
Estou farto. Farto de um país parado, de um país anestesiado. Farto dos políticos que mentem, que assustam, que controlam. Estou farto. Farto de um país calado.
Estou farto. Farto de projectos que não andam, farto de projectos que se encolhem, de verdades que se escolhem. Estou farto. Farto das cunhas, dos tachos. Dos senhores que cozinham, dos imperadores que dominam. Farto das estratégias comezinhas, das ambições pequeninas. Estou farto.
E farto das palmadas nas costas, dos yes men que lambem bostas. Farto. Farto. Farto de quem se verga, de quem se entrega, de quem se nega. Estou farto. Da oposição que não se opõe, do poder que só dispõe – farto do presidente, do vereador, do director, do colaborador. Farto do excelentíssimo doutor, do venerável senhor. Farto.
Estou farto. E quero. Quero o país a pensar, a olhar, a falar. Quero a oposição a apontar, a incomodar, a saltar. Quero. Nada de medo, nada de fuga, nada de falso. Quero.
Quero. Ideias, conceitos, futuros. Quero o desempregado ocupado, quero o empreiteiro dominado. Estou farto. E quero. A empresa a trabalhar, o trabalhador a ganhar. Quero. Quero a liberdade apregoada, quero Abril na peugada. Quero.
E sonho. Com a democracia instaurada, com a decisão partilhada, com a verdade sem espada. Quero. E sonho. Sonho com a imprensa que não se vende, com a pena que não se rende, com a censura que não se acende. Quero.
E sonho. Com o jornalista que investiga, com a chantagem que não se obriga, com a morte da intriga. Sonho. E quero. Quero que se interrogue quem manda, que se pergunte o que se ordena, que se questione com o que se acena. Quero.
Porque estou farto. Farto de quem se sente farto.
Porque estou farto. Farto de estar farto.


[Pedro Chagas Freitas],in "Só os Feios é Que São Fiéis"

domingo, 1 de janeiro de 2012

CARTA DE FIM DE ANO/CICLO A UM AMIGO.




Caro amigo não nos iludamos, não vale a pena, no Mundo e em Portugal Não HÁ NENHUMA ALTERNATIVA DE PAZ, AMOR e LIBERDADE, para 2012 e anos seguintes.

Estamos cercados, dominados por alcateias de corruptos, ditadores, cínicos e gente interesseira que conquistaram todo o poder, e lutam, entre si, para imporem a sua imoralidade. A gente digna e proba não está ao comando de nada, é gente anónima, sem nenhuma influência decisiva em coisa alguma.

Como diz Eduardo Lourenço a História é sempre cruel, e, por vezes, cruel e trágica, foi assim na guerra colonial, foi assim com a perda da independência no século XVII, esperemos que durante as nossas vidas e a dos nossos filhos, netos, etc. isso não aconteça, mas a chegada dos chineses com o seu modelo de trabalho semiescravo a Portugal, como a foto ilustra, é um mau agoiro.

Todavia, estamos a fazer muito pouco, para evitar a tragédia, e a ilusão, já corrompida, pelos partidos tradicionais e gente negativa, dos movimento dos indignados, não será solução, se não for mesmo e somente um capricho. O papel dos jovens será determinante, mas a solução tem de ser participada por todos, sobretudo pelos que nunca são ouvidos.

Caro Amigo 

Não me guia significativa esperança, porque vejo o chiqueiro nacional e global consistente em que vivemos e vejo que gente, como nós, como velhos de 100 anos ou 200 anos, vai-se entretendo com os segredos que estão para além de Saturno, e, quando, alguém sai desta rota e diz: oh senhores o mundo está a desabar-se! Lá vem um bem pensante, armado em democrata, dizer que temos de condescender com estes discursos apocalípticos, e nada mais… 

Todavia escrevem-se artigos com os seguintes títulos: Medo, suicídio e eutanásia da cidadania, de Paulo Granjo, não num blogue ou jornaleco quaisquer, mas em “Le Monde diplomatique (nº de Dezembro de 2011).

Mas se ainda não virem, o que está acontecer, um dia verão, quando forem raptados por um gang de esfomeados, ou virem as suas pensões reduzidas à subsistência.

Com a gente digna emparedada isto fica à mercê de gente com tiques autoritários que, como já está acontecer, surgem como versões de D. Sebastião revisitado. Contudo na área do humanismo e da justiça social têm de se dar passos muito importantes para as lutas politicas que se seguem.

Caro Amigo 

Digo-te isto, porque te considero um homem digno, mas não te iludas, muito estão vencidos, ou convencidos que este destino é fatalmente o nosso. Pouca esperança me guia, mas impulsiona-me a moralidade, e esta e a vida é que devem ser as últimas a morrer. 

Percebo que alguns digam que estão cheios de esperança, porque em desespero de causa, julgam que as pessoas podem escolher qualquer inferno, mas não deveria ser isto o nosso Futuro, este devia ser a construção de uma sociedade LIVRE; DEMOCRÁTICA, - com uma lei eleitoral democrática, o que, não acontece actualmente, entre nós- , DIGNA E DESENVOLVIDA.

Caro Amigo 

Há gente digna, mas afasta-se de tudo, e outra que também o é, mas está fanatizada por: igrejas; cantores de meia tigela; escritores da merda, como um coelho brasileiro e as ritas ferros; actores de telenovelas miseráveis; políticos corruptos e quase todos com um cariz totalitário: ou para servir o 1% dos mais ricos, ou burocracias que pensam que a solução do futuro está algures no passado, e, assim, vamos parar ao Inferno, embora, a resistência nunca morra, os mártires a acontecer, deveriam ser para construir um Mundo diferente, e não o passado, neste caso, será sempre um tragédia injusta, dispensável e inglória.

Mas neste encontro Dantesco entre crueldade e a tragédia da história, quando alguém quer romper com este ciclo maldito, o máximo que se diz, é que isso é mais utópico que a utopia de More, e ponto. 

2012 um ano de pouca esperança, mas de uma luta tremenda para as mulheres e homens livres.
Abraços e beijos segundo os costumes.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Ausência

foto: Maxim Chelak


"Quero dizer-te uma coisa simples: a tua ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma; mas que não deixa, por isso, de deixar alguns sinais - um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes tivessem roubado o tacto. São estas as formas do amor, podia dizer-te; e acrescentar que as coisas simples também podem ser complicadas, quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade. Porém, é o sonho que me traz a tua memória; e a realidade aproxima-me de ti, agora que os dias correm mais depressa, a as palavras ficam presas numa refracção de instantes, quando a tua voz me chama dentro de mim - e me faz responder-te uma coisa simples, como dizer que a tua ausência me dói."
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[Nuno Júdice],in "Pedro,lembrando Inês"

sábado, 3 de dezembro de 2011

CARTA À MULHER QUE VOU LEVAR PARA A CAMA

foto: mick mazzei

«Fornicar é uma ordinarice. É o sexo pelo sexo, o corpo pelo corpo, o suor pelo suor. Sem a magia da comunhão, sem a intensidade emocional da emoção do fundo, da emoção que vem das veias como o grito vem da garganta. Fornicar sabe a carne na carne, a reles pénis em reles vagina. Fornicar é dois corpos que se esfregam. Uma masturbação assistida. Uma partilha insistida.

A mulher que vou levar para a cama – sim, tu – não me vai fornicar. Não vai porque eu não deixo. Lamento. Não deixo. Se fores a mulher que eu vou levar para a cama tens de ser mais do que fornicadora, mais do que especialista em sexo, mais do que a melhor sexoralista do mundo, mais do que a melhor orgasmista do mundo. Se fores a mulher que eu vou levar para a cama vais perceber que fornicar não existe. Fornicar-me não existe. Fornicar, quando fornicar é tudo o que dois corpos que se embraçam fazem, sabe a nada. Continuas sem entender nada?

Mais uma vez: se me queres fornicar, se só me queres fornicar e nada mais do que fornicar-me, quando me levares para cama é certo que não me vais levar para a cama. Fornicar é um amor coxo. Um amor manco. E das duas pernas - ou das duas bolas. Fornicar nem sequer é amor, nem sequer é amável. Fornicar consiste em trocar a mão no sexo pelo sexo que está mais à mão. Desculpa – mas não.

Fazer amor é uma seca. Um tédio. Uma canseira psicológica. É sempre mais do mesmo. Um abraço aqui, um beijo ali, um “amo-te” aqui, um “também te amo” ali. Há carinho, há ternura, há partilha, há cumplicidade. Mas é poucochinho. Coisa pouca quando se pretende o êxtase. Fazer amor é uma seca. Fazer amor, quando tudo que se faz na cama entre dois corpos é fazer amor, é um aborrecimento, uma imensa sensaboria. Se aquilo que me queres fazer, quando me levares para a cama, é amor, daquele que se faz de só carinho, de só ternura, de só cumplicidade de afectos, então garanto-te que não me vais levar para a cama. Não vais. Lamento. Não vais. Fazer amor, para mim, na minha cama e em todas as camas que são minhas (e são minhas, naquele exacto instante que tem de durar para sempre, todas as camas em que eu me deito com outros corpos que se deitam), não existe. Não existe só candura, não existe só o “amo-te tanto” e o “és tão lindo e tão amoroso e tão querido”. Muito menos existe o “és tão fofinho”. Fofinho mas é uma merda. Fofinho é tão pequeninho que até me apetece ir-te ao focinho. Fofinho mas é uma merda. Eu não sou fofinho, não quero ser fofinho e tenho asco de quem é fofinho. Fofinho é um nojinho. Comigo não vais fazer amor. Podes tirar daí o cavalinho da chuva. E podes, já agora, montá-lo também – que daqui não levas nada. Tchauzinho.

Fazer amor é uma treta. Uma engonhice, uma trambiquisse. Fazer amor é uma treta e uma engonhice e uma trambiquisse como fornicar é uma treta, uma engonhice e uma trambiquisse. Fazer amor é uma seca como fornicar é uma seca. Manda fornicar o fazer amor. E manda fornicar tudo o que seja só fornicar. Fornicar por fornicar é simplesmente ficar. E ficar – és tão parvo que ainda nem tinhas olhado bem para a palavra – é não sair do sítio. Estar ali, quieto, a sentir mais do mesmo. E menos do mesmo. À medida que vais fornicando vais-te fornicando. E à medida em que vais fazendo amor vais desfazendo amor. Desfazendo-te – e a quem amas – em amor. Todo o amor se dissolve em esperma. Comigo, anota aí e põe-te a milhas, não vais fornicar. Comigo, anota aí e põe-te a milhas, não vais fazer amor. E agora anota sobretudo o que aí vem, meu amor.


Fornicar amor. É isso, e só isso, que vais fazer comigo quando me levares para a tua e para a nossa cama – e é sempre de dois a cama em que dois se fazem assim: como assim tem de ser. Fornicar amor. Até á última gota fornicar amor. Nem fornicar nem fazer amor – fornicar amor. Fornicar-te como à mais prostituta das prostitutas. E amar-te como à mais única das amadas. Fornicar amor. Chamar-te pêga e dizer-te amo-te, espancar-te o sexo e afagar-te o beijo. Ser o doce e a fera - a treva e o raio. Fornicar amor. E só assim, entre um grito e um afago, fornicar-te com amor: fazer-te amor.»



Texto de Pedro Chagas Freitas
in jornal "Notícias de Guimarães", 07-10-2011