quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

o Porto é...

Conceição Ferreira é a autora do trabalho de Art Photography "o Porto é..."
 o Porto é... sentir a cidade....

 *
 O Porto é só uma certa maneira de me refugiar na tarde, forrar-me de silêncio e procurar trazer à tona algumas palavras, sem outro fito que não seja o de opor ao corpo espesso destes muros a insurreição do olhar.

O Porto é só esta atenção empenhada em escutar os passos dos velhos, que a certas horas atravessam a rua para passarem os dias no café em frente, os olhos vazios, as lágrimas todas das crianças de S. Victor correndo nos sulcos da sua melancolia.

O Porto é só a pequena praça onde há tantos anos aprendo metodicamente a ser árvore, procurando assim parecer-me cada vez mais com a terra obscura do meu próprio rosto.

Desentendido da cidade, olho na palma da mão os resíduos da juventude, e dessa paixão sem regra deixarei que uma pétala poise aqui, por ser tão branca.

1979

[Eugénio de Andrade], in 'Poesia e Prosa [1940-1980] 


sábado, 18 de novembro de 2017

O tempo de sedução terminou...

foto______ Ron Terner

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(...)O tempo de sedução terminou. Terás de me tocar, terás de
trocar o tacto dos olhos pelo tacto dos dedos. Apenas persistirá o
jogo, a cumplicidade, e uma ténue vibração do corpo que se
perdeu contra o meu corpo.(...)

[Al Berto], extraído do livro "Lunário"

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

The Dream Of Life


“If you awaken from this illusion and you understand that black implies white, self implies other, life implies death (or shall I say death implies life?), you can feel yourself – not as a stranger in the world, not as something here on probation, not as something that has arrived here by fluke - but you can begin to feel your own existence as absolutely fundamental.

I am not trying to sell you on this idea in the sense of converting you to it, I want you to play with it. I want you to think of its possibilities, I am not trying to prove it. I am just putting it forward as a possibility of life to think about. So then, let’s suppose that you were able every night to dream any dream you wanted to dream, and that you could for example have the power within one night to dream 75 years of time, or any length of time you wanted to have.

And you would, naturally, as you began on this adventure of dreams, you would fulfill all your wishes. You would have every kind of pleasure during your sleep. And after several nights of 75 years of total pleasure each you would say “Well that was pretty great”. But now let’s have a surprise, let’s have a dream which isn’t under control, where something is gonna happen to me that I don’t know what it's gonna be.

And you would dig that and would come out of that and you would say “Wow! That was a close shave, wasn’t it?”. Then you would get more and more adventurous and you would make further- and further-out gambles what you would dream. And finally, you would dream where you are now. You would dream the dream of living the life that you are actually living today.

That would be within the infinite multiplicity of choices you would have. Of playing that you weren't god, because the whole nature of the godhead, according to this idea, is to play that he is not. So, in this idea then, everybody is fundamentally the ultimate reality, not god in a politically kingly sense, but god in the sense of being the self, the deep-down basic whatever there is. And you are all that, only you are pretending you are not.”

[Alan Watts], in "Out of your mind" 

sábado, 11 de novembro de 2017

O Amor, Meu Amor

foto_______ metin demiralay

Nosso amor é impuro
como impura é a luz e a água
e tudo quanto nasce
e vive além do tempo.

Minhas pernas são água,
as tuas são luz
e dão a volta ao universo
quando se enlaçam
até se tornarem deserto e escuro.
E eu sofro de te abraçar
depois de te abraçar para não sofrer.

E toco-te
para deixares de ter corpo
e o meu corpo nasce
quando se extingue no teu.

E respiro em ti
para me sufocar
e espreito em tua claridade
para me cegar,
meu Sol vertido em Lua,
minha noite alvorecida.

Tu me bebes
e eu me converto na tua sede.
Meus lábios mordem,
meus dentes beijam,
minha pele te veste
e ficas ainda mais despida.

Pudesse eu ser tu
E em tua saudade ser a minha própria espera.

Mas eu deito-me em teu leito
Quando apenas queria dormir em ti.

E sonho-te
Quando ansiava ser um sonho teu.

E levito, voo de semente,
para em mim mesmo te plantar
menos que flor: simples perfume,
lembrança de pétala sem chão onde tombar.

Teus olhos inundando os meus
e a minha vida, já sem leito,
vai galgando margens
até tudo ser mar.
Esse mar que só há depois do mar.

[Mia Couto], in “Idades cidades divindades”


quarta-feira, 8 de novembro de 2017

quando aqui não estás

foto: Φίλιππος
quando aqui não estás
o que nos rodeou põe-se a morrer

a janela que abre para o mar
continua fechada só nos sonhos
me ergo
abro-a
deixo a frescura e a força da manhã
escorrerem pelos dedos prisioneiros
da tristeza
acordo
para a cegante claridade das ondas

um rosto desenvolvendo-se nítido
além
rasando o sal da imensa ausência
uma voz
quero morrer
com uma overdose de beleza


e num sussurro o corpo apaziguado
perscruta o coração
esse
solitário caçador


[Al Berto], in Vigílias