domingo, 25 de janeiro de 2009

Braille


Foto: Lilya Corneli

Leio o amor no livro
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.
.
[Nuno Júdice], in "Geometria Variável"

Toque de Perguntas


Foto: Kaycee

Quando vejo o mar de novo,
o mar viu-me ou não me viu?

Porque é que as ondas me perguntam
o mesmo que lhes pergunto?

E porque batem nas rochas
com tanto entusiasmo vão?

Não se cansam de repetir
à areia a sua declaração?

[Pablo Neruda], in "Livro das Perguntas"

Nua...


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Fui punida por abraçar. Abracei. Prendi todos os que amei. Prendi nos momentos mais belos da minha vida. Fechei nas mãos a plenitude de cada hora. Os braços apertados no desejo de abraçar. Quis abraçar a luz, o vento, o sol, a noite, o mundo inteiro e quis retê-los. Quis acariciar, curar, embalar, aclamar, envolver, cercar. Forcei-os e prendi de tal modo que se partiram; partiram de mim.
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[Anaïs Nin], in “A casa do Incesto”

sábado, 24 de janeiro de 2009

o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias...

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o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

[José Luís Peixoto], in "A Criança Em Ruínas"

Este livro. passa um dedo pela página, sente o papel...


Foto: José Miguel Rodríguez
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Este livro. passa um dedo pela página, sente o papel
como se sentisses a pele do meu corpo, o meu rosto.

este livro tem palavras. esquece as palavras por
momentos. o que temos para dizer não pode ser dito.

sente o peso deste livro. o peso da minha mão sobre
a tua. damos as mãos quando seguras este livro.

não me perguntes quem sou. não me perguntes nada.
eu não sei responder a todas as perguntas do mundo.

pousa os lábios sobre a página. pousa os lábios sobre
o papel. devagar, muito devagar. vamos beijar-nos.



Foto: Kevin Rolly


[José Luís Peixoto] in "A casa, a Escuridão"

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

agora eu era linda outra vez


Foto: Aloha Diao Lavina
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agora eu era linda outra vez
e tu existias e merecíamos
noite inteira um tão grande
amor

agora tu eras como o tempo
despido dos dias, por fim
vulnerável e nu, e eu
era por ti adentro eternamente

lentamente
como só lentamente
se deve morrer de amor


[valter hugo mãe] in o resto da minha alegria seguido de a remoção das almas

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Tropeço de Ternura por Ti


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É simples a separação.
Adeus.
Desenlaçado o último abraço, uma pressa de dar costas um ao outro.
Já não há gestos. O derradeiro (impossível) seria não desfazer o abraço.
Pressa de cada retornar o outro na teia lenta da remembrança.
Não desfazer o abraço. Ficar face encostada ao niagara dos cabelos.
Sobram fotografias, voz no gravador, um bilhete na caixa de correio. Sobra o telefone.
Tensão-telefone. Experimentada. Sofrida.
Tensão-telefone. Possibilidade de voz póstuma.
No gravador, voz de ontem, de anteontem. De há anos.
Sobra o telefone. Mudo.
Retininte?
Sobrarão as cartas. Sobra a espera.
Na teia da remembrança, retomo-te em memória recente: na praia de ternura onde nos enrolámos e desenrolámos desesperados de separação.
Sobra a separação.
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Publicado no Diário de Lisboa, a 5 de Fevereiro de 1970

[Alexandre O’Neill], in Anos 70, poemas dispersos

Azul Ar

Foto: Willy Marthinussen
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azul mais azul que todo o azul do mar
azul mais azul que todo o azul do mundo
que azul tão azul tinha
ali o azul do céu
para onde azulou o passarinho meu
.


18/6/79
[Alexandre O’Neill], in Anos 70, poemas dispersos

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Toque de Perguntas

Foto:Rolfie


As lágrimas que não se choram
esperam em pequenos lagos?

Ou serão rios invisíveis
que correm para a tristeza?

[Pablo Neruda], in "Livro das Perguntas"

domingo, 18 de janeiro de 2009

[ ... ]


"Amo a tua vivacidade, os teus preparativos para voar, as tuas pernas como um vício, o calor entre as tuas pernas.Sim, Anaïs, quero desmascarar-te. Sou demasiado galante contigo.Quero olhar para ti longamente e com ardor, arrancar-te o vestido, apalpar-te, examinar-te.Sabes que ainda mal olhei para ti?Há ainda demasiada santidade presa a ti.Não sei como te dizer o que sinto.Vivo numa expectativa perpétua.Tu vens e o tempo desliza num sonho.É só quando te vais embora que me apercebo completamente da tua presença.E depois é demasiadamente tarde."

Anaïs Nin, in “Henry & June”



"Só tenho três desejos agora, comer, dormir e foder. Os cabarets excitam-me. Apetece-me ouvir música rouca, ver caras, roçar-me em corpos, beber um ardente Benedictine. Mulheres belas e homens atraentes despertam ardentes desejos em mim. Quero dançar. Quero drogas. Quero conhecer pessoas perversas, ser íntima delas.Nunca olho para caras ingénuas. Quero morder a vida e ser despedaçada por ela.Henry não me dá tudo isso. Eu despertei o seu amor. Que se lixe o seu amor.Ele sabe foder-me como mais ninguém, mas quero mais do que isso.Vou para o Inferno, para o Inferno, para o Inferno. Selvagem, selvagem, selvagem."

Anaïs Nin, in “Henry & June”



Fotos de Stefan Rappo, Nicola Ranaldi e Andi Todea

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Toque de Perguntas

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Onde termina o arco-íris,
na tua alma ou no horizonte?

[Pablo Neruda], in "Livro das Perguntas"

domingo, 11 de janeiro de 2009

Fim


Lilya Corneli

quando voltaste, os teus olhos e as tuas mãos eram
chamas a falarem para mim.

eu estava na cama onde nasci vezes de mais.

peço-te, nunca esqueças o meu olhar de quando
voltaste.

era de noite. eu não esperava mais nada.

e tu voltaste. tão bonita.
és tão bonita. no mundo, deve haver um jardim tão
bonito como tu.

voltaste.

eu sorri tanto. fui feliz e, nesse momento, morri.

[José Luís Peixoto], in “A Casa, a Escuridão”

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

ºº Carta de Henry a Anaïs ºº


Foto: Monika Baginska

Anaïs
Quando voltares vou dar-te um banquete literário de sexo – ou seja foder e conversar e conversar e foder. Anaïs, eu vou abrir as tuas entranhas. Deus me perdoe se esta carta alguma vez for aberta por engano. Não consigo evitá-lo. Quero-te. Amo-te. Tu és comida e bebida para mim, és todo o raio da máquina da vida, deitar-me em cima de ti é uma coisa, mas aproximar-me de ti é outra. Sinto-me unido a ti, um só contigo, pertences-me quer isso seja sabido ou não. Cada dia que espero agora é tortura. Estou a contá-los lentamente, dolorosamente. Mas vem o mais depressa que possas. Preciso de ti. Meu Deus, quero ver-te em Louveciennes, ver-te naquela luz dourada da janela, com o teu vestido verde do Nilo e o teu rosto pálido, uma palidez gelada como na noite do recital. Amo-te como tu és. Amo as tuas ancas, a tua palidez dourada, a curva das tuas nádegas, o calor dentro de ti, o sumo que sai de ti. Anaïs, amo-te tanto, tanto! Estou a ficar sem palavras. Estou aqui sentado a escrever-te com uma tremenda erecção. Posso sentir a tua boca macia fechando-se sobre mim, a tua perna apertando-me com força, voltar a ver-te aqui na cozinha levantando o vestido e sentando-te em cima de mim e a cadeira a andar pelo chão da cozinha, fazendo tamp, tamp.

Henry

[Anaïs Nin], in Henry & June

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã...


Foto: Jan Saudek

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços. (…)
e não direi

nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não
_________________________________________________[estragar
a perfeição da felicidade.



[José Luís Peixoto], in “A Criança em Ruínas”

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

ºº Da vida das Marionetas ºº


Foto: Gundega Dege

Porque não me disseste logo ao princípio que eras casado antes que me prendesse a ti? Porquê tantas mentiras, tantas desculpas, tantas respostas evasivas, apenas o número de telefone do emprego, não o número de telefone de casa, a aldrabice de que moravas com a tua mãe, a tua mãe doente e o telefone a enervá-la, depois a história grave, quase de lágrima no olho
- Vou dizer-te a verdade
a seguir a um discurso patético
- Não te disse a verdade antes por medo de perder-te e a treta de uma relação sem amor
- Não sinto nada por ela
mais irmãos que outra coisa, nunca se tocam, não têm relações, ela doente dos nervos, dependente de ti, tentativas de suicídio, angústias e tu com pena dela
- Unicamente pena percebes?
e preocupado com os filhos coitados
- O que as crianças sofrem com isto
o teu dever de dar-lhes uma vida equilibrada
- Não pediram para vir a este mundo pois não?
fazendo, ao mesmo tempo, de pai e de mãe, a tua garantia de que isto não há-de durar sempre, é uma questão de meses, um ano vá lá, dois anos no máximo, os miúdos crescem entretanto, amadurecem, equilibram-se, não é fácil viverem com uma mãe que nem da cama sai, só lágrimas, só instabilidade, só caprichos, só gritos, tenho de lhe fazer ver as coisas pouco a pouco, de me aconselhar com o médico e ontem a Fátima para mim que te viu de braço dado com ela no cinema, que lhe segredavas sorrisos, que lhe davas a mão, que trazias aliança

(onde escondes a aliança quando estás comigo?)

que fingiste não a ver quando passou por ti, a Fátima ao passar por ti
- Olá Rui
e tu a esconderes o alarme em sobrancelhas de espanto, a tua mulher a afastar-se zangada, a Fátima ainda a ouviu repetir
- Olá Rui?
e tu embrulhado em explicações aflitas, uma pessoa de quem não te lembravas, uma antiga colega talvez, a prima de uma prima, tu a tranquilizá-la com um beijo, não uma doente, uma mulher normalís­sima, segundo a Fátima parecida comigo com mais cinco ou seis anos, também de olhos claros, também loira com uma carteira igual à car­teira que me deste nos anos e agora diz-me lá o que é que eu faço, como queres que te aceite, continue contigo, feita palhaço, a engolir fanta­sias, o que é que eu faço, conta-me, com um homem que me vigariza, me engana, me jura o que não há-de cumprir, o que é que eu faço com um escroque, Rui, és um escroque, não me toques, não fales, não me venhas com conversas

(mexes tão bem nas palavras!)

não me ponhas a mãozinha aí, tira a mãozinha daí, disse-te para tirares a mãozinha daí, vai-te embora antes que eu descubra o telefone da tua casa, liga para lá, conta tudo à tua mulher, explica-lhe o safardana que és, quero as chaves em cima desta mesa, quero que me desapareças da vista, me desampares a loja, metes-me nojo sabias, a única coisa que sinto por ti é nojo, repugnância, não passas de um rato morto, nem sequer te odeio, desprezo-te, nem percebo como não vo­mito só de olhar para ti, se ao menos fosses inteligente, bonito, e não és inteligente nem bonito, para te falar com franqueza

(e eu falo-te com franqueza é a nossa diferença)

és um velho, cheiras a velho, se visses bem a tua cara, a tua barriga, as tuas rugas, o cabelinho branco, a careca, não vales nada Rui, con­vence-te que não vales nada, admite de uma vez por todas que não va­les um chavo, desonesto, hipócrita, aldrabão, porque não disseste logo ao princípio que eras casado antes que me prendesse a ti, porque não foste sincero, se tivesses sido sincero eu até aceitava compreendes, so­fria mas aceitava, esperava que te divorciasses, lutava por ti, dava-te o que nunca dei a ninguém e que não merecias mas dava-te

(não me interrompas)

onde é que eu ia, ia que te dava o que nunca dei a ninguém, não me interrompas Rui, e que não merecias mas dava

(pedi-te que não me interrompesses não pedi?)

e que não merecias mas dava-te, não me pegues na mão, não te sentes aí, porque me fizeste isto Rui, achas que mereço

(afasta-te)

achas que mereço isto, que mereço sofrer

(por amor de Deus afasta-te)

achas que devo ser infeliz por tua causa, responde se achas que de­vo ser infeliz por tua causa, não sorrias, não penses que te desculpo com essa facilidade toda, és velho, cheiras a velho, repara na tua cor­cunda, és um velho, convence-te, um gaiteiro de um velho e hás-de morrer desajeitado Rui, não hás-de compreender, por dúzias de anos que dures, que o fecho do soutien é para o outro lado que abre.

[António Lobo Antunes]

domingo, 4 de janeiro de 2009

ºº Toque de Perguntas ºº


Foto: Sylvie Benoit


Quem era aquela que te amou
em sonhos, quando dormias?

Para onde vão as coisas dos sonhos?
Vão para o sonho dos outros?

E o pai que vive nos sonhos
torna a morrer quando acordas?

Dão flor as plantas do sonho
e amadurecem seus graves frutos?


[Pablo Neruda], in "Livro das Perguntas"

ºº Encantamento ºº


Foto: Mai An Hoa

há uma palavra mágica que se diz. essa palavra
é sempre diferente. montanha, precipício, brilho.
essa palavra pode ser um olhar. a voz. um olhar.

essa palavra pode ser o espaço de silêncio onde
não se disse uma palavra. brilho, __________, montanha.
essa palavra pode ser uma palavra, qualquer palavra.

há uma palavra mágica que se diz. há um momento.
depois dessa palavra, só depois dessa palavra,
pode começar o amor.


[José Luís Peixoto], in A casa, a Escuridão



sábado, 3 de janeiro de 2009

ºº Choveu todo o dia... ºº



Foto: Zhang Jingna

Acordo na desolação da casa desabitada.
Choveu. Choveu todo o dia sobre a cidade.
Digo:
- Esta chuva limpa a morte dos dias.


[Al Berto], in O Anjo Mudo

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

ºº Amor ºº


Foto: Andreea A.

Amor
quando os instantes de amanhã se acumulam nas
paredes da casa, eu rasgo as páginas onde te escrevo,
porque sei que tudo será desnecessário, tudo será
frágil. Quando imagino o sol que não sei se poderei ver,
esqueço as paredes e,

com tanta força,

quero que sejas feliz.


[José Luís Peixoto], in “A Casa, a Escuridão”

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

ºº poema sobre o amor eterno ºº


Foto: Peter Coulson

inventaram um amor eterno. trouxeram-no em braços para o meio das pessoas e ali ficou, à espera que lhe falassem. mas ninguém entendeu a necessidade de sedução. Pouco a pouco, as pessoas voltaram a casa convictas de que seria falso alarme, e o amor eterno tombou no chão. não estava desesperado, nada do que é eterno tem pressa, estava só surpreso. um dia, do outro lado da vida, trouxeram um animal de duzentos metros e mil bocas e, por ocupar muito espaço, o amor eterno deslizou para fora da praça. ficou muito discreto, algo sujo. foi como um louco o viu e acreditou nas suas intenções. carregou-o para dentro do seu coração, fugindo no exacto momento em que o animal de duzentos metros e mil bocas se preparava para o devorar.

[valter hugo mãe] in “livro de maldições”