domingo, 17 de abril de 2011

Espera

foto: vitalijj rudenko
Deito-me tarde
Espero por uma espécie de silêncio
Que nunca chega cedo
Espero a concentração da hora tardia
Ardente e nua
É então que os espelhos acendem o seu

segundo brilho
É então que se vê o desenho do vazio
É então que se vê subitamente
A nossa própria mão poisada sobre a mesa.
É então que se vê o passar do silêncio
Navegação antiquíssima e solene


[Sophia de Mello Breyner Andresen],in "Geografia"

A boca


foto: Marcus Ohlsson

A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?)
espera o ardor do vento
para ser ave e cantar.

Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser
se a luz é tanta,
como se pode morrer?



[Eugénio de Andrade], in "Poesia"

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Coisas Simples



Dá-me a lua, tira-a do céu
E pousa-a na minha mão.
Dá-me um dia de sol
Quente e brilhante
Oferece-mo quando eu acordar.
Dá-me um rio
Tira-o do leito, muda-lhe o curso
Fá-lo correr à minha porta
E dá-me um rio.
Não te peço que me ames
Só te peço coisas simples
Um acordar cheio de sol
Um rio à minha porta
E a lua nas minhas mãos.


[Encandescente], in "Encandescente"

domingo, 3 de abril de 2011

Não quero...


foto: Iringo Demeter


“ (…) Não quero abrir os olhos para não ter que não te encontrar. (…)


[Pedro Paixão], in “a noiva judia”