
Foto: i.anton
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No Silêncio dos Jardins
Se um dia regressares, a terra estremecerá na memória de tua ausência. E
a água formará um vasto oceano no outro lado do teu olhar.
Regressarás,
talvez, quando o ar se tornar rubro em redor do meu sono – e o lume das
horas, a pouco e pouco, saciar a boca que clama pelo teu nome.
Encontrar-nos-emos
nas imagens deste jardim de afectos e de ódios. Porque os jardins são
labirínticas arquitecturas mentais, onde podemos resguardar os corpos de
qualquer voragem do tempo.
Por isso, enquanto não regressas,
construo jardins de areia e cinza, jardins de água e fogo, jardins de
répteis e de ervas aromáticas, jardins de minerais e de cassiopeias –
mas todos abandono à invasão do tempo e da melancolia.
Mas se um dia
regressares, passeia-te por dentro do meu corpo. Descobrirás o segredo
deste jardim interior – cuja obscuridade e penumbras guardaram intacto o
nocturno coração.
Foto: Ivan Gorcev
[Al Berto], in "Dispersos"