quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Testamento



Aos amigos (poucos), inimigos (nenhum, desconheço dada a insignificância que provocam), credores (tantos), familiares (numerosos como moscas), parceiros (incontáveis, de copo, de trabalhos, de sonhos, etc) e a quem mais possa interessar.
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Venho, por meio desta (óbvio), comunicar-lhes meu falecimento.
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Deixo esta em forma de testamento (“registrado em cartório do céu e assinado, Deus”) para se faça cumprir minha vontade diante das condolências tão típicas dadas aos, finalmente, vencidos.
Também comemoro o desaparecimento de alguns semelhantes.

Morrerei, provavelmente de falta de ar, aos quarenta e cinco anos e, de preferência, numa segunda-feira, para dar-lhes alguma folga ao mais terrível dos dias semanais. Sim, o diagnóstico é infalível. Não cabe avaliar prognósticos.

Quero deixar claro que tudo que possa se aproveitar do meu corpo deve ser doado. De certo que não há muito. Mas, quem sabe, a ciência possa conseguir descontaminar alguma parte, ou mesmo encontrar algo ainda latente e útil. Vivo. Porque, de fato, não se morre de súbito. Venho morrendo há muito.

Que partes de mim seriam de alguma utilidade?

Se possível fosse o reuso dos meus braços, estes poderiam servir bem ao receptor. São fortes, bravos e não se fatigam facilmente das enxadas e dos abraços. De inteiro se aproveita. Dedos prescutadores que escafandrinham superfícies com a habilidade dos insetos notívagos. Tremem, por certo, mas até que, por tal, provocam risos e sensações vibrantes. Os punhos também têm seus valores. Flexíveis, sempre. Por entenderem na flexibilidade a verdadeira força. Inquebráveis, portanto. De resto, é força. A força oriunda dos afagos e proteções indiscriminadas.

Não relacionarei os órgãos putrefatos. Fígados encharcados de tóxicos. Pulmões arfantes pelos tragos e paixões incompreendidas. Coração abatido pelos sustos e sístoles de Sísifo. Pernas em embolias por não terem andado os caminhos que convidavam. Costas fracas de tanto se curvarem aos impérios e seus imperativos. Sequer suportaram a própria cruz. Bagagem indispensável a qualquer que exista.

Ah! Meus olhos. Estes bem que poderiam trazer alento a quem os recebessem. Pois vêem belezas tantas, mesmo em meio às desgraças, sempre graças perambulando os calçadões e praias do meu desejo. Não existiria infelicidade. Nunca. Cansados se o alcance é muito perto ou mal definido. Mas quanto aos horizontes e distantes sonhos, são lunetas postas na imensidão azul. Do mar. Do céu. Dou-os de muito bom grado.

Pertences? Cds, livros e a velha escrivaninha de meu pai. Obviamente serão das filhas. Primeiramente, a mais velha. Sequentemente, a menor, caso a primeira abra mão.

Quanto ao ato de despedida, peço que o façam da seguinte maneira: todos deverão estar descalços. Também deverão usar uniformes de mordomos ou empregadas, para que não haja destaque pela indumentária. Desvencilhem-se de títulos plausíveis aos mortos. Deixem que os sentimentos vistam a importância das coisas.

Não quero padres. De nenhuma espécie. Não respeito igrejas, menos ainda, seus representantes. Sejam elas quais forem. Budistas, metodistas, católicas, protestantes, todas. Contudo, acredito na santidade dos vinhos e similares. Bebam a vontade. Por mim.

À minha companheira, peço que se entregue ao primeiro que aparecer. Sei que estará, a princípio, bem infeliz porque muito me ama. Mas que continue se dando, indiscriminadamente, para poder gozar em qualquer corpo e, no campo das probabilidades, aumentar as chances do novo amor. Sei bem que as mulheres precisam disso. De um casamento, um elo mais forte, um porto.

No mais, plantem-me para adubar flores e plantas. Do esterco ao esterco. Eis a beleza incoercível da natureza.

[Aluísio Martins]
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Mais de Aluísio Martins:

sábado, 21 de fevereiro de 2009

A Ninfa e o Sátiro

Ninfa e Sátiro (1860), de Alexandre Cabanel


Deitada na sua cama de ervas, a ninfa
espera que o sátiro regresse do bosque para a cobrir
com o manto do amor. Um sonho atravessa
a sua cabeça: o fio que se estende do centro
do labirinto até à porta do mar. À medida que
ela avista a luz da saída, um pássaro negro corta
o fio que fica para trás, impedindo que o sátiro
descubra o seu rasto.

No prado onde a ninfa se deita, os pastores
espreitam a sua nudez: a pele branca do corpo,
exposta ao sol da tarde; e os seios oferecidos
ao céu, para que as nuvens os invejem. Só o sátiro
não chega: perdido na espessura do bosque, não
tem nenhum fio que o conduza pelos seus caminhos,
até à saída onde a ninfa o espera. Mas os pastores
rodeiam-na; e ela, de olhos fechados, finge
que sonha, enquanto eles cobrem a sua nudez
com as folhas do campo.

A ninfa, porém, sacode-as com as mãos, e
o seu corpo nu, à vista dos pastores, continua
à espera do sátiro perdido nos bosques.

[Nuno Júdice], in "Geometria Variável"

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

pernoitas em mim


foto: Jan Saudek

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória...amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes


[Al Berto], in "O Medo"

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

vem comigo


Foto: Katarzyna Widmanska

vem comigo
ver as pirâmides fantásticas do vento
no interior luminoso da terra encontrarás
o segredo de quartzo para desvendares o tempo
onde contemplamos a fulva doçura das cerejas

iremos para onde os restos de vida não acordem
a dor da imensa árvore a sombra
dos cabelos carregados de pólenes e de astros
crescemos lado a lado com o dragão
o súbito relâmpago dos frutos amadurecendo
iluminará por um instante as águas do jardim
e o alecrim perfumará os noctívagos passos
há muito prisioneiros no barro
onde o rosto se transforme e morre
e já não nos pertence

vem comigo
praticar essa arte imemorial de quem espera
não se sabe o quê junto à janela
encolho-me
como se fechasse uma gaveta para sempre
caminhasse onde caiu um lenço
mas levanto os olhos
quando o verão entra pelo quarto e devassa
esta humilde existência de papel

vem comigo
as palavras nada podem revelar
esqueci-as quase todas onde vislumbro um fogo
pegando fogo ao corpo mais próximo do meu
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[Al Berto], in "Uma Existência de Papel"

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Toque de Perguntas

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Quais são os trabalhos forçados
de Hitler no inferno?
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Pinta paredes ou cadáveres?
Respira o gás dos seus mortos?
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Dão-lhe a comer as cinzas
de tantas crianças calcinadas?
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Ou deram-lhe desde que morreu
a beber sangue por um funil?

Ou martelam-lhe na boca
os dentes de ouro arrancados?
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(...)
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Ou deve de noite e de dia
viajar sem trégua com os seus presos?

Ou deve morrer sem morrer
eternamente sob o gás?
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.[Pablo Neruda], in "Livro das Perguntas"

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Palavra Amor




Às vezes, penso que é impossível que entendas completamente aquilo que sinto.
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A culpa não é tua. Não existe culpa. As palavras que tenho são muito insuficientes, são muito imperfeitas.
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E se, num momento, vejo a minha mão deslizar sobre a pele do teu rosto, ou sobre a pele do teu pescoço, ou sobre a pele da tua voz olhar presença. Sou atingido por um raio e tenho de dizer palavras, tenho de tentar dizer-te aquilo que sinto.
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Esses são os momentos em que digo a palavra amor. Palavra insuficiente e imperfeita que não sei o que diz.
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Esses são os momentos em que sinto que qualquer coisa grande como o mundo me atravessa; a primavera inteira atravessa-me; as vozes e os sorrisos de todas as crianças atravessam-me; a lua, nós conhecemos a lua, a sua luz tão lenta no céu da noite, e a noite iluminada por luz, luz estendida sobre o rio onde se estende o nosso olhar imenso, cheio qualquer coisa grande como o mundo, a lua, a noite e a luz atravessam-me.
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E digo a palavra amor como se dissesse tudo isto. E, quando me dizes a palavra amor, acredito que partilhamos palavras. E podemos dizer essa palavra dentro de um beijo. Os nossos lábios juntos a fazerem os mesmos movimentos, a fazerem as formas dessa palavra: a m o r. Juntos.
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E há outra palavra que não sabemos como dizer: felicidade. Dizemos felicidade e, dentro do instante dessa palavra, sentimos alguma coisa que chamamos por esse nome. É também grande como o mundo.
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Quando estamos juntos, de mãos dadas, quando nos abraçamos e os nossos corpos se tocam mais do que se estivessem apenas a tocar-se, quando as nossas vozes são a mesma, quando as nossas palavras, sentimos certas coisas grandes como o mundo. O mundo é tantas vezes infinito.
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No entanto, quando estou sozinho por um momento, quando o teu rosto é apenas tocado pela minha memória, penso que é impossível que entendas completamente aquilo que sinto.
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A culpa não é minha. Não existe culpa. Daquilo que sinto, dessas palavras, amor, felicidade, sei apenas que são grandes como o mundo quando o mundo é infinito. Posso estar na rua, posso estar no meu quarto, posso ter acabado de acordar e o meu corpo fica rodeado pelas folhas do Outono que o vento agita, fica rodeado de pássaros e a claridade é a pureza singela, como os teus olhos, como os teus lábios, como os teus dedos, como a tua pele. É tão grande. Tão grande.
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E é por isso que penso que é impossível que entendas, mas depois penso em nós, a palavra amor, isto, tão grande, nós somos feitos de tantas coisas impossíveis, tantas coisas de que duvidamos, tantas coisas que verdadeiramente acreditamos impossíveis, com todas as certezas, com todas as dúvidas. Nós somos impossíveis e, no entanto, estamos aqui, dizemos essa palavra impossível, amor, e vemos significados na voz, na pele, no olhar e dentro de nós.
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Tu sabes que existe o medo. Gostava de poder dizer-te para não teres medo, mas eu também sei que existe o medo. Na vertigem, de repente, esse momento. Penso que é impossível. E é quando gostava que me desses a mão.
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Tu sabes que é assim. Existe tudo dentro dessa palavra, amor, essa palavra que dizemos e que nos soterra. Estamos debaixo dela como se estivéssemos debaixo de montanhas, como se existíssemos no centro do céu sem nuvens. E imaginamos que todos podem ver-nos, e imaginamos que ninguém nos vê. Possível e impossível.
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Quando digo amor, apenas esta palavra, amor, gostava de dizer-te que por trás do meu rosto estão todos os gestos que poderão amparar-te quando precisares, todos precisamos de gestos e de palavras às vezes, eu tenho e terei esses gestos e essas palavras para ti; gostava de dizer-te que o sangue começou já a correr pelas ruas do futuro, e o sangue tem essa pureza singela da claridade, gostava de falar-te do mar, mas tu sabes mais do que eu sobre o mar, um infinito de coisas simples; gostava de dizer-te que por trás do meu rosto existe de novo o meu rosto e existe o teu rosto e existe a esperança, a rua da esperança. Estamos aqui. Juntos.
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Posso estar na rua, posso estar no meu quarto, e sei, sinto que estamos de mãos dadas, abraçamo-nos e os nossos corpos tocam-se mais do que se estivessem apenas a tocar-se, as nossas vozes são a mesma. É tão grande. Tão grande. Possível e impossível.
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E poderia continuar a dizer palavras, tudo, mundo, sempre, e todas essas palavras seriam insuficientes e tão imperfeitas.
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A culpa não é tua, não é minha. Não existe culpa. Existe o contrário da culpa, qualquer coisa boa e absoluta.
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Estendo a minha mão dentro dessa névoa luminosa. Sinto essa claridade na minha pele. Sou atingido por um raio e sei que poderia continuar a dizer palavras, mas agora olho-te nos olhos, atravesso-os e sou atravessado por eles, o teu rosto está à distância da minha respiração, os teus dedos e os meus dedos, a nossa pele, e sei que poderia continuar a dizer palavras, mas agora olho-te nos olhos e basta-me a verdade desta palavra, amor, e basta-me a verdade do teu nome.
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[José Luís Peixoto], Texto publicado no Jornal de Letras em 28-05-2003

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

a tua ausência é, ...



a tua ausência é, em cada momento, a tua ausência.
não esqueço que os teus lábios existem longe de mim.
aqui há casas vazias. há cidades desertas. há lugares.

mas eu lembro que o tempo é outra coisa, e tenho
tanta pena de perder um instante dos teus cabelos.

aqui não há palavras. há a tua ausência. há o medo sem os
teus lábios, sem os teus cabelos. fecho os olhos para te ver
e para não chorar.


[José Luís Peixoto], in “A Casa, a Escuridão”

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Toque de Perguntas


O céu dos suicidas será
alguma estrela invisível?

[Pablo Neruda], in "Livro das Perguntas"

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Era assim...


Foto: Ira Bordo

era assim:

queres?
queres algo?
queres desejar?
desejas querer?
desejas-me?
desejas querer-me?
queres desejar-me?
queres querer-me?
queres que te deseje?
desejas que te queira?
queres que te queira?

quanto me queres?
quanto me desejas?
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ah quanto te quero
quando te quero
quando me queres...

-
[Ana Hatherly], in" Um Calculador de Improbabilidades"

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Zeitgeist



Os meus contemporâneos falam muito e dizem: «Então é assim», com o ar desenvolto de quem se alimenta do som da própria voz, quando começam a explicar longamente as actuais tendências das artes ou das letras ou das sociedades a pouco e pouco iguais umas às outras neste primeiro mundo em que nascemos, agora que o segundo deixou de existir e que o terceiro, mais guerra, menos fome, continua abstracto, em folclore distante.

Parece que está morta a metafísica e que a verdade adormeceu, sonâmbula, nos corredores vazios onde, às escuras, se vão cruzando alguns milhões de frases dos meus contemporâneos. Todavia, falam de tudo com o entusiasmo de quem lança «propostas» decisivas e percorre as «vertentes» de novos caminhos para a humanidade, enquanto saboreiam a cerveja sem álcool, o café sem cafeína e sobretudo o amor sem amor, para conservarem o equilíbrio físico e mental.

Os meus contemporâneos dizem quase sempre que são moralistas, e é por isso que forçam toda a gente, mesmo quem não quer, a ser livre, saudável e feliz: proíbem o tabaco e o açúcar e se por vezes sofrem, tomam comprimidos porque a alegria é uma questão de química e convém tê-la a horas certas, como o prazer vigiado por preservativos e outros sempre obrigatórios cintos de segurança, pra que um dia possam sentir que morrem cheios de saúde.

Quando contemplo os meus contemporâneos entre as conversas trendy e os lugares da moda, «tropeço de ternura», queria ser plo menos tão ingénuo como eles, partilhar cada frémito dos lábios, a labareda vã das gargalhadas pla madrugada fora. No entanto, assedia-me a acédia de ficar assim, mais preguiçoso do que um Oblomov à escala portuguesa – ó doce anestesia a invadir-me o corpo, a libertar-me desse feitiço a que se chama o «espírito do tempo» em que vivemos, sob escombros de um céu desmoronado em mil pequenos cacos ainda luminosos, virtuais estrelas que se apagam e acendem à flor de todos os écrans que os meus contemporâneos ligam e desligam cada dia que passa, nunca se esquecendo de carregar nas teclas necessárias para a operação save e assim alcançarem a eternidade.


[Fernando Pinto do Amaral], in "Poemas" (Edição especial para o Jornal de Letras nº1000)

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Toque de Perguntas

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Não será a nossa vida um túnel
entre duas vagas claridades?


Ou não será uma claridade
entre dois triângulos escuros?


[Pablo Neruda], in "Livro das Perguntas"

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Trata-me Como as Páginas de Um Livro!


"Trata-me Como as Páginas de Um Livro!"
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O “livrocorpo”

"O Livro de Cabeceira" de Sei Shonagon é uma obra da literatura clássica japonesa, escrita entre 996 e 1021 por uma dama da corte imperial. É um diário, escrito (com sedução e erotismo onde expõe os seus desejos de viver) por uma mulher inteligente e conhecedora dos clássicos chineses. Algo pouco comum para uma mulher naquela época.
Os treze poemas que surgem no filme “The Pillow Book” de Peter Greenaway foram traduzidos para o português a partir dos seus originais em inglês. No filme esses poemas são escritos em japonês sobre os corpos de diversos homens, originando o conceito de “livrocorpo”, isto é, a caligrafia sobre a pele.






The Pillow Book

The Pillow Book narra a vida de uma jovem mulher japonesa chamada Nagiko Kiohara (Vivian Wu), decorrendo a acção durante as três últimas décadas do século XX. A história inicia-se mostrando cenas de sua infância em Kyoto, em especial seus aniversários, nos quais são celebrados dois rituais: I. O pai escreve, com pincel e tinta colorida, um solene e sensual cumprimento no seu rosto; II. A sua tia lê-lhe um clássico da literatura japonesa, “O livro de cabeceira” de Sei Shonagon.Nagiko tem o mesmo prenome da antiga escritora e a sua tia a convence a manter um diário no mesmo estilo. O seu pai é calígrafo e escreve histórias infantis, nas quais se resolvem mistérios através do emprego da Matemática. Porém, para publicar seus trabalhos ele depende da boa-vontade de um editor e tem que se sujeitar aos seus desejos para sustentar sua família. Aos cinco anos, Nagiko vê o seu pai ser sodomizado pelo editor, acto que se repete a cada aniversário seu, como uma sombra aos rituais familiares.No seu 18º aniversário, o pai deixa de pintar o seu rosto e ela é persuadida a casar com um sobrinho do editor, um arqueiro fanático. O seu marido recusa-se a continuar o ritual da pintura e ela dedica-se a seu diário, numa obsessiva identificação com Sei Shonagon.Quando o conflito se exacerba, ele queima o diário de Nagiko e ela, em resposta, deita fogo à casa.Nagiko foge, então, de tudo e vai para Hong-Kong, onde se torna uma estilista de moda. Um fotógrafo, Hoki, fica apaixonado por ela e passa a persegui-la. Durante esse período de tempo, ela passa a encontrar-se com calígrafos, na esperança que eles tragam de volta as memórias dos aniversários da infância, quando seu pai escrevia na sua face. Tal como seu pai trocava caligrafia por sexo com o editor, ela troca sexo por caligrafia no seu corpo.Depois de muitos casos com calígrafos, ela encontra no Café-Typo – uma café damoda – um tradutor inglês chamado Jerome, que quebra o padrão sugerindo que ela é que deveria fazer a escrita. Ela deveria tornar-se o pincel e não o papel.Nagiko, a princípio, recusa mas começa a experimentar escrever no seu próprio corpo e Hoki fotografa seus primeiros trabalhos e leva-os ao editor, que os rejeita. Ela vai procurar o editor, decidida a executar o mesmo jogo de sedução, mas sente repulsa ao chegar no escritório do editor, pois um gramofone toca a mesma música que ouvia na infância enquanto seu pai era sodomizado. Nessa visita, Nagiko descobre que Jerome é amante do editor e então resolve seduzi-lo. Eles acabam por se apaixonar e ela acredita que finalmente encontrou o amor que irá substituir o pai, a pessoa que irá escrever na sua face por ocasião de seus aniversários, dando sequência ao ritual. Nesse momento de paixão, ela revela que gostaria de se tornar uma escritora, como uma forma de honrar seu pai.Jerome sugere um plano, no qual ela escreveria no seu corpo e ele se apresentaria ao editor. Compondo sobre o corpo de Jerome uma elaborada mensagem caligráfica, Nagiko propõe ao editor (“A AGENDA”) uma série de 13 livros tendo como tema “O AMANTE”.

[Adaptado do Ensaio do Prof. Dr. Rafael Raffaelli]


Dos trezes livros, deixo aqui o 1º e o 6º:



O PRIMEIRO LIVRO - A AGENDA
(escrito no corpo de Jerome)

(Pescoço)
"Eu quero descrever o Corpo como um Livro
Um Livro como um Corpo
E este Corpo e este Livro
Será o primeiro volume
De treze volumes"

(Caixa Torácica)
A primeira grandeza do livro está no torso
Sede dos pulmões
Que sopra o vento que seca a tinta.
Sede do coração
Que bomba a tinta
Que é sempre vermelha
Antes que seja negra
O coração e os dois pulmões são mantidos rectos
Perto, mais não se delimitando
Protegidos pela cobertura da caixa torácica
Cobertos por enegrecidos por título enegrecidos de papel como marca d'água
O sopro da inspiração corre entre eles
Desenhados do ar por sua influência conjunta.

(Nuca ao Cóccix)
Nenhuma função do livrocorpo é singular
Se um serviço múltiplo puder ser realizado.
Assim o ar da inspiração
Divide a passagem
Com sais, palavras
Sentenças, adoçantes parágrafos
Todos desmoronam em agitação nas páginas ruminantes
Para jazer em fileiras seriadas como hastes de arroz,
Num campo, ou os pontos da costura num tatami,
Pacientemente aguardando a irrigação
Por água ou visão
Mesmo que em mil anos não surja um leitor

(Barriga)
A segunda grandeza do livro está na barriga,
Fábrica para a mistura dos materiais,
Um laboratório de selecção e fiação,
Retendo e relembrando,
Uma editora em fluxo contínuo,
Estampada com o corte denteado do umbigo,
Raramente ocioso, nunca parado,
Dividindo o espaço com preparações
Para o futuro com a ironia da economia.
Futuro e passado partilhando a mesma rodovia.
Livrocorpo sempre mostrando, na sua história, evoluções.

(Pénis e Escroto)
Eu sou a muito necessária
Coda.
O pedaço-rabo,
O sempre reprodutor Epílogo.
O derradeiro parágrafo pendente
Esta é a razão
Para que o próximo livro
Brote.



SEXTO LIVRO - O LIVRO DO AMANTE
(escrito em Jerome, transformado no livro de cabeceira)

(Pescoço)
Este é um livro e um corpo
Que é tão tépido ao toque
Meu toque.

(Peito)
Eu pressionei este livro em meus olhos
Na minha testa, nas minhas bochechas,
Eu mantive este livro aberto sobre minha barriga.
Eu me sentei sorrindo sobre este livro
Até que minha carne se amalgamou nas suas capas.
Eu me sentei gargalhando neste livro até que humedeci
Suas capas com meu corpo.
Eu envolvi este livro em minhas pernas.
Eu me ajoelhei sobre este livro até meus joelhos sangrarem.

(Barriga e Coxas)
Este livro e eu nos tornamos indivisíveis
Eu coloquei meus pés nas últimas páginas deste livro,
Confiante em estar tão mais alto no mundo
Como eu nunca estive antes.
Possa eu manter este livro para sempre
Possa este livro e este corpo sobreviverem ao meu amor.
Possa este corpo e este livro me amarem tanto quanto
Eu amo sua extensão, sua gramatura, sua solidez, seu texto
Sua pele, suas letras, sua pontuação, suas quietas
E suas ruidosas páginas. Suas delícias sôfregas.
Livro, corpo – amo-te.

(Costas)
Ele respira gentilmente na sua primeira página.
Ele respira mais fundo conforme as páginas viram.
Quando o ritmo de leitura é obtido
As palavras ganham uma velocidade urrada
E as páginas correm.
Eu corri com essas páginas.
Ao seu final há um suspiro e o livro
Fecha-se em contentamento.
O leitor, de bom grado, começa de novo.
Nádegas Corpo e livro estão abertos.
Face e página.
Corpo e página.
Sangue e tinta.
Ponta dos dedos, debrum do rebordo.
A superfície do limite de cada página é tão macia
As marcas d’água são como veias fluidas.
As páginas são tão harmoniosas na sua proporção
Que desarmonia em seu conteúdo é impossível.


"Trata-me Como as Páginas de Um Livro!"


Photography: Sacha Vierny
[The Pillow Book - O Livro de Cabeceira - Sei Shonagon]